Pais e Professores
Stephen Kanitz
Formado
na conceituada Harvard Business School nos Estados Unidos, Stephen
Kanitz é, dentre outras atividades, articulista da revista
Veja onde escreveu este belo artigo na edição de 21
de fevereiro de 2007.
PARABÉNS, CALOUROS DE 2007
Stephen Kanitz
Mais de 1,5 milhão de jovens brasileiros começam
neste mês a derradeira etapa de sua educação.
Meus parabéns! O grande problema que vocês vão
enfrentar é que o conhecimento humano está dobrando
a cada nove meses. Seguindo esse raciocínio, dois anos depois
de formado, entre 60% e 80% de tudo que vocês aprenderam estará
obsoleto, dependendo da profissão. Isso se seus professores
ensinarem o que há de mais novo em sua especialidade, o que
nem sempre acontecerá.
Vocês provavelmente encontrarão três tipos
de professor. Os ultraconservadores, que ainda ensinam os “conhecimentos”
de 1880. Na realidade, dogmas de um mundo que não existe
mais. Percebam como vocês encontrarão professores que
se definem como neoliberais, neofreudianos, neomarxistas ou neo
alguma coisa. Neo significa novo. No fundo, não são
progressistas como dizem, mas ultraconservadrores. Acham que o mundo
não mudou ou então pararam no tempo, como todo conservador.
Outro grupo de professores é os enganadores, aqueles que
não se atualizam e dão aulas mesmo assim. Não
se reciclam há anos, ensinam o que era novo dez anos atrás.
Ou, pior, ensinam as mesmas coisas que eles próprios aprenderam
quando estudavam. Se tiverem sorte vocês encontrarão
um pequeno grupo de professores criativos e visionários,
que criam e mostram como será o mundo de amanhã. São
eles que vão inspirá-los a tentar fazer o que ninguém
fez antes, são eles também que inspiram quase todos
os jovens que inventaram esses sites na Internet.
O que muitos de seus professores ainda não perceberam é
que o conceito de conhecimento humano mudou. Não existe mais
o conhecimento perene, guardado a sete chaves, restrito às
“lides acadêmicas”. As universidades não
são mais as “casas do saber”, as “catedrais
do conhecimento”, como muitas se autodefinem. Hoje, o conhecimento
humano é de curta duração, poderíamos
até dizer descartável, usado duas ou três vezes
e jogado fora, quando não faz mais sentido guardá-lo.
Isso os obrigará a repensar e a gerar novo conhecimento,
porque provavelmente o futuro precisará de soluções
nunca vistas.
Estou exagerando um pouco para que vocês entendam aonde
quero chegar. O importante é vocês aprenderem a criar
conhecimento, e não somente usar o conhecimento do passado.
Eu utilizo o termo administrativo “conhecimento just intime”.
Vocês terão muitos problemas a resolver e terão
de saber como analisá-los, gerando uma solução
ou “conhecimento” apropriado, que não necessariamente
servirá para o resto da vida. Daqui a alguns anos, a situação
será outra requerendo nova análise e nova solução.
Algumas coisas são perenes, como 2 + 2 = 4 e muitas leis
da física, não há a menor dúvida. Mas
o que estou sugerindo é que vocês tomem o cuidado de
sempre questionar seus professores, para se certificar de que o
conhecimento do passado será de fato útil no futuro.
Max Weber, Keynes e Freud escreveriam a mesma coisa se estivessem
vivos hoje? É isso que vocês precisam descobrir. Até
pode ser que sim, mas é melhor desconfiar sempre.
O que eu peço a vocês, calouros de 2007, é
que se concentrem em como gerar conhecimento. Como observar, como
identificar variáveis relevantes, os personagens vitais do
problema e os interesses. Como analisar alternativas e tomar decisões.
Usei muito pouco das teorias que me ensinaram na faculdade. Meu
sucesso profissional foi devido muito mais ao conhecimento que eu
próprio gerei, que eu mesmo criei, do que às teorias
e técnicas que mal me ensinaram.
A “faculdade” que vocês precisam adquirir é
a da criação, da criatividade, da geração
de conhecimento, e não a da erudição, do academicismo
ou a da decoreba que se alastra pelo país.
Infelizmente, vocês terão de agradar aos dois primeiros
tipos de professores repetindo o passado que eles querem ouvir,
senão não serão aprovados. Mas aproveitem os
próximos quatro ou cinco anos procurando e prestigiando os
professores criativos, aqueles que de fato pesquisam o futuro e
não somente o passado, e juntos criem o conhecimento para
resolver os problemas atuais do Brasil, e mandem-nos para mim ou
coloquem na Internet.
Saibam distinguir quem é quem, e boa sorte!
Stephen Kanitz é formado pela
Harvard Business School. |