Pais e Professores
Salma Jordana
Salma hoje faz
o quarto ano de Direito na UFG. Foi uma de nossas primeiras alunas
e cursou conosco os três anos do Ensino Médio. Certo
dia, sem que esperasse, ela me enviou um e-mail. Achei lindo e perguntei
se poderia torná-lo público, para que outros alunos
pudessem ter idéia da visão de quem já passou
com sucesso pelo tortuoso processo de buscar uma vaga em uma universiade
federal.
NOME: Salma Jordana de Oliveira e Rezende
Para o Tucano
Olá...
Bem, talvez você ache bem estranho eu te escrever agora...
Mas comecei a pensar neste assunto e como já o esgotei com
meu namorado, pensei em escrever isto pra você.
Eu queria estar no 3° Ano mais uma vez. Sempre estou me lembrando
desta fase que, em vista do pouquíssimo que vivi, me parece
ser a mais importante.
Andei dando umas aulas particulares pra ganhar um dinheirinho,
e então comecei aperceber o quanto estes garotos, que você
cuida tão bem, não se dão conta da importância
que a escola e o estudo têm em suas vidas. Acho que eu também
não me dava conta. Lembro-me que, como eles, eu achava que
era incompreendida, que o diretor e os professores estavam se lixando
pra mim e que só se preocupavam em ganhar dinheiro, que eram
uns falsos, uns chatos, uns mandões... e toda aquela lorota
de sempre. Poxa, como eu estava enganada... É claro que não
era sempre assim... Tinha os professores que eu amava e até
por quem nutri paixões secretas... Mas na maioria das vezes
eu sempre via meu educador como um injusto.
Hoje escuto de alguns garotos argumentos absurdos, mas que eu repeti
muitas e muitas vezes... Porque é que eu tenho que aprender
história? Eu vou fazer Educação física
pra quê?... Quanta bobagem!
Fiquei abismada quando pedi para um aluno para ele tentar me convencer
de que ler não vale a pena, ele me escreveu que: "a
gente tem que aproveitar a vida, porque como dizia Cazuza 'o tempo
não pára'". Bem, Cazuza disse isso e muitas outras
coisas belíssimas, mas era um cara cultíssimo e que
provavelmente leu um bocado.
Não consigo me ver aproveitando a vida sem ter lido livros,
músicas, bulas de remédios, rótulos de shampoo.
Eu não saberia aproveitar a vida se o Takezi não tivesse
me obrigado a fazer milhões de exercícios e assim
aprender a raciocinar logicamente em tudo, nem mesmo se a Cristina
não tivesse me ensinado a escrever, e o Leopoldo não
me ensinasse possibilidades de mudar o futuro através do
meu passado... Como eu aproveitaria a vida se o Alberto e você
não tivessem me ensinado a magia e o encanto do meu corpo?
E como então eu poderia entender meus sentimentos e os do
meu próximo se não conhecesse e analisasse tantos
homens e personagens nas aulas do Divino?
“Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração”
Drummond, que maravilha é ler isto e poder a cada dia entender
melhor e diferente do que havia entendido antes. Sem os professores
brigões e exigentes e sem um diretor tão chato quanto
o senhor, eu certamente faria muitas rimas.. eu me chamaria Raimundo....
mais o meu coração é vasto demais para isto...
eu não quero ser medíocre, e vocês nunca permitiram
que eu fosse medíocre.
Hoje estou no segundo ano da faculdade de Direito. Nenhum professor
briga comigo, nenhum professor me manda calar a boca. Não
existe tarefa, não existem cartolinas, não existe
Gincuca, nem simulados, nem aulas aos sábados, não
existe pressão, não existem aulas de física.
Mas não existe carinho, preocupação, apoio,
motivação, estímulos...
Eu estou só e ninguém mais vai me dizer que eu fiz
uma redação excelente, e nem mesmo que eu fiz uma
redação horrível. Ninguém me aponta
erros, ninguém aponta acertos. Os amigos são cada
vez mais raros, são vários os colegas que eu nem sei
o nome, o professor não sabe o meu. Eu posso ter cólicas,
problemas na família, fome, isso não é da conta
deles. Eu tinha tantos pais e nem sabia disso. Tenho passado por
uma fase triste. Uma fase de baixo-estima. Eu não tenho mais
certeza de vou ser um sucesso como tinha no 2° grau.
Hoje é tudo bem mais difícil.Vestibular foi fichinha...
ô provinha medíocre.
Agora eu tento passar em muitas outras provas...
Que tipo de profissional vou ser?
Como vou fazer para ganhar dinheiro?
Esse é meu curso?
Vou ser feliz?
Vou fazer o que gosto?
Sou inteligente como achava que era?
Vou deixar meus pais orgulhosos?
Vou deixar meus filhos orgulhosos?
Cadê os sonhos que eu amava tanto?
Cadê aquela fé absurda em mim mesma?
Vou ser um exemplo? Que tipo?
Eu ficaria feliz se fosse para algumas pessoas o que vocês
foram para mim. Ficaria muitíssimo feliz se conseguisse despertar
nesse momento tão importante da vida destes meninos o interesse
pelo conhecimento. Adoraria se conseguisse ensinar uma música
de Chico Buarque. Ou se eu os fizesse discutir as obras de Drummond.
Explicar como coração bate, como o besouro do cerrado
não poderia voar, como Hitler perdeu a Guerra, porque geometria
é o máximo, como o fósforo ascende!Está
nas minhas mãos, e nas mãos destes meninos um mundo
inteiro, e nós precisamos muito de tudo o que vocês
nos oferecem. Nós precisamos de guias. Mas nós precisamos
respeitá-los, para sermos respeitados quando chegar o momento.
Quando no primeiro dia de aula você nos fez uma pergunta:
qual é a origem da vida? No outro dia eu trouxe a reposta
de que no final das contas nós não sabemos a resposta,
mas talvez seja porque não estamos preparados para a conhecermos.
Hoje eu também acrescentaria que mesmo não sabendo
a resposta, isso não é desculpa para tratarmos a vida
com tão pouca importância. Talvez vamos conhecer a
origem da vida quando soubermos respeitar e aprender tudo o que
ela nos oferece. (...)
Beijos para todos... e sucesso sempre!
Salma.
17/09/2005 13:06:06
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