Pais e Professores
A VOLTA DA FAMÍLIA CARETA
Lia
Luft – Veja – Junho/2007
Foi tão
grande e variado o número de e-mails, telefonemas e abordagens
pessoais que recebi depois de escrever que família deveria
ser caretas, que resolvi voltar ao assunto, para alegria dos que
gostaram e náuseas dos que não concordaram ou não
entenderam (ai da unanimidade, mãe dos medíocres).
Atenção: na minha coluna não usei “careta”
como quadrado, estreito, alienado, fiscalizador e moralista, mas
humano, aberto, atento, cuidadoso. Obviamente empreguei esse termo
de propósito, para enfatizar o que desejava.
Houve quem dissesse que minha posição naquele artigo
é politicamente conservadora demais. Pensei em responder
que minha opinião sobre família nada tem a ver com
postura política, eu que me considero um animal apolítico
no sentido de partido ou de conceitos superados, como “a esquerda
é inteligente e boa, a direita é grossa e arrogante”.
Mas, na verdade, tudo o que fazemos, até a forma como nos
vestimos e moramos, é altamente político, no sentido
amplo de interesse no justo e no bom, e coerência com isso.
E assim, sem me pensar de direita ou de esquerda, por ser interessada
na minha comunidade, no meu país, no outro em geral, em tudo
o que faço e escrevo (também na ficção),
mostro que sou pelos desvalidos. Não apenas no sentido econômico,
mas emocional e psíquico: os sem auto-estima, sem amor, sem
sentido de vida, sem esperança e sem projetos.
O que tem isso a ver com minha idéia de família?
Tem a ver, porque é nela que tudo começa, embora não
seja restrito a ela. Pois muito se confunde família frouxa
(o que significa sem atenção), descuidada (o que significa
sem amor), desorganizada (o que significa aflição
estéril) com o politicamente correto. Diga-se de passagem
que acho o politicamente correto burro e fascista.
Voltando à família: acredito profundamente que ter
um filho é ser responsável, que educar filho é
observar, apoiar, dar colo de mãe e ombro de pai, quando
preciso. E é também deixar aquele ser humano crescer
e desabrochar. Não solto, não desorientado e desamparado,
mas amado com verdade e sensatez. Respeitado e cuidado, num equilíbrio
amoroso dessas duas coisas. Vão me perguntar o que é
esse equilíbrio, e terei de responder que cada um sabe o
que é, ou sabe qual é seu equilíbrio possível.
Quem não souber que não tenha filhos.
Também me perguntaram se nunca se justifica revirar gavetas
e mexer em bolsos de adolescentes. Eventualmente, quando há
suspeita séria de perigos como drogas, a relação
familiar pode virar um campo de graves conflitos, e muita coisa
antes impensável pode se justificar. Deixar inteiramente
à vontade um filho com problemas de drogas é trágica
omissão.
Assim como não considero bons pais ou mais os cobradores
e policialescos, também não acho que os tipo “amiguinho”
sejam muito bons pais. Repito: pois que não sabem onde estão
seus filhos de 12 ou 14 anos, que nunca se interessaram pelo que
acontece nas festinhas (mesmo infantis), que não conhecem
nomes de amigos ou da família com quem seus filhos passam
fins de semana (não me refiro a nomes importantes, mas a
seres humanos confiáveis), que nada sabem da vida escolar,
estão sendo tragicamente irresponsáveis. Pais que
não arranjam tempo para estar com os filhos, para saber deles,
para conversar com eles.....não tenham filhos. Pois, na hora
da angustia, não são os amiguinhos que vão
orientá-los e ampara-los, mas o pai e a mãe –
se tiverem cacife. O que inclui risco, perplexidade, medo, consciência
de não sermos infalíveis nem onipotentes. Perdoem-me
os pais que se queixam (são tantos!) de que os filhos são
um fardo, de que falta tempo, falta dinheiro, falta paciência
e falta entendimento do que se passa – receio que o fardo,
o obstáculo e o estorvo a um crescimento saudável
do filhos sejam eles.
Mães que se orgulham de vestir a roupeta da filha adolescente,
de freqüentar os mesmos lugares e até de conquistar
os colegas delas são patéticas. Pais que se consideram
parceiros apenas porque bancam os garotões, idem. Nada melhor
do que uma casa onde se escutam risadas e se curte estar junto,
onde reina a liberdade possível. Nada pior do que a falta
de uma autoridade amorosa e firme. O tema é controverso,
mas o bom senso, meio fora de moda, é mais importante do
que livros e revistas com receitas de como criar filho (como agarrar
seu homem, como enlouquecer seu amante...). É no velhíssimo
instinto, na observação atenta e na escuta interessada
que resta a esperança. Se não podemos evitar desgraças
– porque não somos deuses -, é possível
preparar melhor esses que amamos para enfrentar seus naturais conflitos,
fazendo melhores escolhas vida afora.
EDUCAÇÃO POSSÍVEL
Lya Luft – Revista Veja – 23 de maio de 2007
Educação é algo bem mais amplo do que escola.
Começa em casa, onde precisam ser dadas as primeiras informações
sobre o mundo (com criança também se conversa!), noções
de postura e compostura, respeito, limites. Continua na vida pública,
nem sempre um espetáculo muito edificante, na qual vemos
políticos concedendo-se um bom aumento em cima dos seus já
polpudos ganhos, enquanto professores recebem salários escrachadamente
humilhantes, e artistas fazendo propaganda de bebida num momento
em que médicos, pais e responsáveis lutam com a dependência
química de milhares de jovens. Quem é público,
mesmo que não queira, é modelo: artistas, líderes,
autoridades. Não precisa ser hipócrita nem bancar
o santarrão, mas precisa ter consciência de que seus
atos repercutem, e muito.
Estamos tristemente carentes de bons modelos, e o sucesso da visita
do papa também fala disso: além de falar de religião,
milhares foram em busca de uma figura paternal admirável,
que lhes desse esperança de que retidão, dignidade,
incorruptibilidade, ainda existem.
Mas vamos à educação nas escolas: o que é
educar? Como deveria ser uma boa escola? Como se forma e se mantém
um professor eficiente, como se preparam as crianças e adolescentes
para este mundo competitivo onde todos têm direito de construir
sua vida e desenvolver sua personalidade?
É bem mais simples do que todas as teorias confusas e projetos
inúteis que se nos apresentam. Não sou contra colocarem
um computador em cada sala de aula neste reino das utopias, desde
que, muito mais e acima disso, saibamos ensinar aos alunos o mais
elementar, que independe de computadores: nasce dos professores,
seus métodos, sua autoridade, seu entusiasmo e seus objetivos
claros. A educação benevolente e frouxa que hoje predomina
nas casas e escolas prejudica mais do que uma sala de aula com teto
e chão furados e livros em frangalhos. Estudar não
é brincar, é trabalho. Para brincar temos o pátio
e o bar da escola, a casa.
Sair do primeiro grau tendo alguma consciência de si, dois
outros, da comunidade onde se vive, conseguindo contar, ler, escrever
e falar bem (não dá para esquecer isso, gente!) e
com naturalidade, para se informar e expor seu pensamento, é
um objetivo fantástico. As outras matérias, incluindo
as artísticas, só terão valor se o aluo souber
raciocinar, avaliar, escolher e se comunicar dentro dos limites
de sua idade.
No segundo grau, que encaminha para a universidade ou para algum
curso técnico superior, o leque de conhecimentos deve aumentar.
Mas não adianta saber história ou geografia americana,
africana ou chinesa sem conhecer bem a nossa, nem falar vários
idiomas se nem sequer dominamos o nosso. Quer dizer, não
conseguimos nem nos colocar como indivíduos em nosso grupo
nem saber o que acontece, nem argumentar, aceitar ou recusar em
nosso próprio beneficio, realizando todas as coisas que constituem
o termo tão em voga e mal aplicado: “cidadania”a.
O chamado terceiro grau, a universidade, incluindo conhecimentos
especializados, tem seu fundamento eficaz nos dois primeiros. Ou
tudo acabará no que vemos: universitários que não
sabem ler e compreender um texto simples, muito menos escrever de
forma coerente. Universitários, portanto, incapazes de ter
um pensamento independente e de aprender qualquer matéria,
sem sequer saber se conduzir. Profissionais competindo por trabalho,
inseguros e atordoados, logo, frustrados.
Sou de uma família de professores universitários.
Fui por dez anos titular de lingüística de uma faculdade
particular. Meu desgosto pela profissão – que depois
abandonei, embora gostasse do contato com os alunos – deveu-se
em parte à minha dificuldade de me enquadrar (ah, as chatíssimas
e inócuas reuniões de departamento, o caderno de chamada,
o currículo, as notas...) e em parte ao desalento. Já
nos anos 70 recebíamos nas universidades jovens que mal conseguiam
articular frases, muito menos escrevê-las. Jovens que não
sabiam raciocinar nem argumentar, portanto, incapazes de assimilar
e discutir teorias. Não tinham cultura nem base alguma, e
ainda assim faziam faculdade, alguns com sacrifício, deixando-me
culpada quando os tinha que reprovar. Em tudo isso, estamos melancolicamente
atrasados. Dizem que nossa economia floresce, mas a cultura, senhores,
que inclui a educação (ou vice-versa, como queiram...)
anda mirrada e murcha. Mais uma vez, corrigir isso pode ser muito
simples. Basta vontade real. Infelizmente, isso depende dos políticos,
depende dos governos. Depende de cada um de nós, que os escolhemos
e sustentamos. !
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