Pais e Professores
Cláudio de Moura Castro
Formado
em economia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Mestrado pela Universidade de Yale
Um ano de estudos no programa de doutoramento da Universidade da
Califórnia em Berkeley e Ph.D. em Economia pela Universidade
de Vanderbilt
Ensinou nos programas de mestrado da PUC/Rio, Fundação
Getúlio Vargas, Universidade de Chicago, Universidade de
Brasília, Universidade de Genebra e Universidade da Borgonha
em Dijon
Trabalhou no IPEA/INPES e foi Coordenador Técnico do Programa
ECIEL, passando em seguida a Diretor-Geral da CAPES
No exterior, foi Chefe da Divisão de Políticas de
Formação da OIT (Genebra), Economista Senior de Recursos
Humanos do Banco Mundial, passando para o BID como Chefe da Divisão
de Programas Sociais
Ao aposentar-se do BID em fins do ano 2000, assumiu a posição
de Presidente do Conselho Consultivo das Faculdades Pitágoras
Autor de mais de trinta livros e mais de trezentos artigos científicos.
Articulista da revista Veja.
Ponto de Vista
ENTRE A FINLÂNDIA E O PIAUÍ
Cláudio de Moura Castro
Revista Veja – 4 de abril de 2007
A Finlândia tem o melhor sistema educativo do mundo. O Piauí
possui a melhor escola secundária do Brasil. O que mais haverá
em comum entre a Finlândia e o Piauí? É simples,
ambos praticam a teoria do feijão-com-arroz educativo.
Ouvindo alguns oráculos da nossa educação,
sentimos falta de um dicionário para entender certas palavras
e de suplemento de oxigênio para navegar nos ares rarefeitos
das teorias recitadas. Para outros, sem doses fartas de tecnologia
nada vai se resolver. Mas, esquadrinhando o mundo em busca dos sistemas
educativos que deram certo, vamos descobrir que são simples
óbvios e robustos. Praticam o feijão-com-arroz da
educação. Vejamos o que dizem as pesquisas peneirando
os traços comuns das boas escolas e dos bons sistemas.
* Boas escolas têm clara percepção dos rumos
em que navegam, isto é, possuem metas. Além disso,
são poucas metas, que não mudam de uma hora para outra
e são compartilhadas com todos. E não é só
isso. As metas são quantificadas (exemplo: em dois anos,
ganhar tantos pontos nos testes).
* O ambiente é sempre saudável, os fluídos
são bons e os professores estão satisfeitos. De fato,
para os professores, a atmosfera da escola é pelo menos tão
importante quanto o salário. Ademais, a sociedade valoriza
e prestigia os professores.
* As autoridades dão ás escolas muito autonomia
para operar. Há forte liderança do diretor (“a
escola tem a cara do diretor”). Ele manda. É um real
gerente, estando livre para se mover. Mas deve atingir metas estabelecidas,
e seu desempenho é avaliado com rigor. Quase não é
preciso dizer: nem sua indicação é moeda de
troca na política e nem ele é eleito pelos seus pares.
* Sejam públicas ou privadas, as escolas são administradas
como as boas empresas. Há cobrança de resultados e
vantagens para quem desempenha bem seu papel. Os melhores mestres
são colocados nas turmas mais difíceis. Ao mesmo tempo,
malandros e incompetentes ganham puxões de orelha.
* Provavelmente, os professores nunca ouviram falar nem nos autores
nem nas teorias da moda pedagógica. Contudo, conhecem bem
os assuntos que ensinam e aprenderam a ensinar. De fato, pedagogia
para eles significa saber ensinar cada ponto da matéria.
* Há muita ênfase em aplicar as teorias nos problemas
da vida real – em vez de decorar fatos, fórmulas e
definições. Os livros são de boa qualidade,
detalhados e universalmente usados. Os professores não precisam
“criar” sua aula (embora não seja proibido),
pois existe uma retaguarda de planejamento e explicação
de tudo o que acontece na aula (os livros e os guias dos professores
oferecem bancos de perguntas, de exercícios e de aplicações
práticas).
* Os currículos oficiais são claros e precisos, dizendo
exatamente o que é para ser ensinado e aprendido. Segundo
um funcionário do Ministério da Educação
da Finlândia: “Nosso currículo prescreve, nossos
professores ensinam e nossos alunos aprendem as mesmas competências
e conhecimentos que são avaliados pelo Pisa (Programa Internacional
de Avaliação de Alunos)”.
* A sala de aula é convencional. Existem avaliações
freqüentes, bastante dever de casa e muito feedback para o
aluno. A jornada de trabalho é longa (pelo menos cinco horas),
mas não há necessariamente tempo integral. Os alunos
são seriamente cobrados e precisam estudar. A disciplina
é “careta” (por exemplo, não se pode conversar
durante a aula).
* A família acompanha a vida escolar do aluno e vigia de
perto, para assegurar que ele fez o dever de casa. Além disso,
conversa muito com ele e garante a existência de um ambiente
físico e psicológico que favorece o estudo e o aprendizado.
Televisão berrando ou sintonizada em novela pode ser a distração
da família, mas desvia o aluno de seu maior projeto de vida,
que é a educação.
Quando examinamos as melhores escolas do ENEM, lá está
também a predominância da doutrina do feijão-com-arroz,
observada nas melhores escolas de outros países. Colecionam
os melhores lugares as instituições (confessionais
ou não) de tradição rígida, os colégios
militares e outras do mesmo estilo. Ainda bem que não são
necessárias fórmulas mirabolantes para oferecer uma
boa educação.
Artigo publicado na revista Veja de 10 de janeiro de 2007
Autópsia de um fiasco
Cláudio de Moura Castro
O fiasco de nossa educação fundamental começa
a ser percebido. Há cada vez mais brasileiros sabendo que
tiramos os últimos lugares no Programa Internacional de Avaliação
de Estudantes (PISA), uma prova internacional de compreensão
de leitura e de outras competências vitais em uma economia
moderna. Sabem também dos resultados do Sistema Nacional
de Avaliação da Educação Básica
(Sabe), confirmando plenamente esse diagnostico moribundo do ensino.
Agora cabe fazer a autópsia do fracasso, dissecando cuidadosamente
o defundo: por que os alunos não aprendem?
Tão retumbante fracasso tem múltiplas causas. Contudo,
o presente ensaio assesta suas baterias em uma causa fatal, mas
pouco considerada. Vejamos uma constatação surpreendente
e assustadora: o Pisa mostrou que os alunos das famílias
brasileiras mais ricas entendem menos um texto escrito do que os
filhos de operários da Europa e de outros países com
educação séria. Portanto, não é
a pobreza dos alunos ou das escolas que explica o vexame.
Por que nossos alunos não entendem um texto escrito? Submeto
aqui a hipótese de que reina nos impérios pedagógicos
e nos autores da moda uma atmosfera que desvaloriza a tarefa de
compreender o que está escrito no papel. Veja-se a seguinte
citação de B. Charlot: “Os saberes científicos
podem ser medidos em falsos e verdadeiros, mas não os conteúdos
de filosofia, pedagogia e história......(fora das ciências
naturais) o mundo do verdadeiro e do falso é do fanatismo,
não da cidadania.
Ou esta outra, de E. Morin, afirmando que, “em lugar da
especialização, da fragmentação de saberes,
devemos introduzir o conceito de complexidade”. Critica também
“o principio consolidado da ciência, o determinismo
– segundo qual os fenômenos dependem diretamente daqueles
que os precedem e condicionam os que lhes seguem”. Ou ainda
a afirmação do D. Lerner , de que “não
faz falta saber ler e escrever no sentido convencional....Quem interpreta
o faz em relação ao que sabe...interpretações
não dependem exclusivamente do texto em si”.
Nesses textos, há asneiras irremediáveis e assuntos
que coroariam um processo de amadurecimento intelectual. Contudo,
para jovens que iniciam seus estudos, são formulas certeiras
para uma grande balbúrdia mental, em uma idade que pede a
consolidação de idéias claras e a compreensão
rigorosa e analítica do texto escrito. Embaçamos o
ensino ao solicitar aos alunos que “reinterpretem” o
pensamento dos grandes cientistas e filósofos, segundo Mortimer
Adler, “pedindo sua opinião a respeito de tudo”
Continua correto o conselho de Descartes de dividir o problema
em tantas partes quantas sejam necessárias para sua compreensão.
De fato, a física de Newton é determinista. Nas melhores
escolas, é com ela que se afia a capacidade de análise
dos alunos – inclusive na terra dos autores citados. As ciências
sociais adotam outro determinismo, expresso em distribuições
de probabilidades. A Filosofia requer ainda mais exatidão
no uso da linguagem. Elegância e rigor precisam ser conquistados
na língua portuguesa, e as primeiras lições
devem ser exercícios de interpretação correta
do que está escrito. Ao se enamorarem das idéias turvas
acima citadas, nossos professores desviam as atenções
que deveriam colimar o uso judicioso das palavras e embrenham seus
alunos na indisciplina do relativismo, do subjetivismo e da “criatividade”.
Wittgenstein foi ao âmago da questão ao dizer que
“os limites da minha linguagem são também os
limites do meu pensamento”. Quem não aprendeu a usar
palavras não sabe pensar. Para Spinoza, “as desavenças
humanas são desavenças de palavras”.
O grande desafio dos ciclos iniciais de uma educação
é entender as relações entre sons, letras e
significados, aprendendo a ler, para que se possa passar a ler para
aprender. Lembremo-nos da obsessão de George Steiner, sempre
em busca do sentido exato que os autores quiseram dar ás
palavras. Sem isso, o que vem depois é ruído, é
o que respondem nossos alunos às questões cuidadosamente
formuladas nas provas do Pisa e do Sabe. Esses miasmas intelectuais
não oferecem os alicerces para um distanciamento crítico
e produtivo do texto original – tarefa que só pode
vir mais adiante.
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