Pais e Professores
Pais, Educadores e Professores
Em nossa modesta opinião, os verdadeiros educadores são
os pais. Rejeito o título de educador. Sou professor, me
esforço para ser educador dos meus próprios filhos.
Segundo Içami Tiba, com vários livros lançados
sobre o assunto como, por exemplo, "Quem Ama Educa"
e vários outros, na verdade: "a escola não
educa, ela qualifica o aluno educado".
Dentro deste contexto, separamos vários artigos de estudiosos
da Educação, óbvia e compreensívelmente
contrariados com a política educacional brasileira.
Abaixo, Poderão ser encontrados vários artigos de
renomadas personalidades e estudiosos da educação
como Cláudio de Moura Castro e o Secretário de Educação
de Nova York, Eric Nadelstern. Muitos outros poderão ser
lidos clicando nas barras secundárias logo abaixo de "PAIS
E PROFESSORES" à esquerda.
Atenciosamente
Marcos das Neves Tucano
Escolha uma das matérias abaixo e clique para ler
na integra.
MEDIR
PARA AVANÇAR RÁPIDO
 O
físico alemão que comanda os rankings de educação
da OCDE diz que o Brasil precisa copiar práticas que dão
certo em outros países para deixar de vez o grupo dos piores.
Nenhum indicador sobre a qualidade de ensino tem tanto peso e repercussão
quanto o Pisa, sigla em inglês para programa internacional
de aferição de estudantes, que está sob os
cuidados do físico alemão Andreas Schleicher, 44 anos.
Há oito, ele é o responsável pela aplicação
da prova, uma iniciativa da OCDE (organização que
reúne as trinta nações mais desenvolvidas do
mundo). Na comparação com 57 países, o Brasil
sempre aparece entre os últimos colocados em todas as disciplinas.
Situação que Schleicher conhece não apenas
por estatísticas mas por suas viagens ao Brasil. Desde que
assumiu o cargo, ele já visitou escolas em mais de 100 países
– rotina que o mantém sempre longe de Paris, onde mora
com a mulher e os três filhos.
Os brasileiros apareceram, mais uma vez, entre os piores estudantes
do mundo nos últimos rankings de ensino da OCDE. O que o
senhor descobriu ao analisar as provas desses estudantes? Elas não
deixam dúvida quanto ao tipo de aluno que o Brasil forma
hoje em escolas públicas e particulares. São estudantes
que demonstram certa habilidade para decorar a matéria, mas
se paralisam quando precisam estabelecer qualquer relação
entre o que aprenderam na sala de aula e o mundo real. Esse é
um diagnóstico grave. Em um momento em que se valoriza a
capacidade de análise e síntese, os brasileiros são
ensinados na escola a reproduzir conteúdos quilométricos
sem muita utilidade prática. Enquanto o Brasil foca no irrelevante,
os países que oferecem bom ensino já entenderam que
uma sociedade moderna precisa contar com pessoas de mente mais flexível.
Elas devem ser capazes de raciocinar sobre questões das quais
jamais ouviram falar – no exato instante em que se apresentam.
Depois de mais de uma década de avaliações,
o senhor vê avanços no caso brasileiro? Os resultados,
apesar de ruins, são sempre um pouco melhores em relação
aos anteriores. Além disso, o Brasil passou a ter chance
de avançar no momento em que começou a mapear os problemas
de maneira objetiva – e não mais com base na intuição
de alguns governantes. Isso é básico. Não dá
para pensar em melhorar algo que não foi sequer dimensionado.
Daí a importância da comparação internacional.
Ao olhar os rankings, pais, educadores e autoridades podem começar
a fazer comparações e constatar o óbvio: suas
escolas estão bem atrás das dos países da OCDE.
O senhor costuma ser procurado por brasileiros insatisfeitos com
os resultados? Isso acontece. Ao saberem do fiasco nos últimos
rankings, alguns políticos e especialistas de mentalidade
mais atrasada me ligaram revoltados. Diziam: "Vocês estão
exigindo dos alunos que falem sobre situações distantes
demais da realidade deles. É injusto". A miopia dessa
gente a impede de enxergar que o fato de estudantes chineses ou
americanos terem a resposta para tais questões não
revela apenas um despreparo dos brasileiros, mas mostra também
como eles estão em desvantagem na competição
com os demais. Não são, no entanto, os únicos
a reagir mal.
Quem mais reclama? Basicamente, todo mundo que não aparece
no topo. Basta sair um ranking novo que meu telefone não
pára de tocar. Apenas há pouco tempo, as autoridades
passaram a usar esse medidor tão eficaz para aferir as próprias
deficiências e apontar saídas com base em experiências
que dão certo em outros países. Apesar de uma relativa
abertura para observar o que se passa em escolas de outros cantos
do mundo, espanta como a educação ainda é uma
área tão pouco globalizada em sociedades tão
modernas.
Por que outros setores são mais globalizados do que a educação?
Ao ficarem circunscritos às suas fronteiras e resistirem
à idéia de aprender com a experiência alheia,
os países estão movidos por uma espécie de
orgulho patriótico sem sentido. O pensamento geral é
algo como: "Cada um sabe o que é melhor para suas salas
de aula". Essa mesma lógica do isolamento intelectual
se repete entre as escolas e, mais surpreendente ainda, entre professores
de um mesmo colégio. Pergunte a um deles o que o colega da
sala ao lado está fazendo para resolver um problema comum
a ambos e ouvirá como resposta: "Não tenho a
mais vaga idéia". Nesse cenário, a China é
uma ótima exceção e já começa
a colher os efeitos positivos.
"Os chineses não têm constrangimento em copiar
o que funciona em outros países. Ao contrário: eles
são movidos por isso. É uma das razões para
progredir a uma velocidade tão espantosa, enquanto os brasileiros
melhoram em ritmo mais lento"
O que há de extraordinário no exemplo chinês?
Os chineses não demonstram constrangimento em copiar o que
funciona nos outros países. Ao contrário: eles são
movidos por isso. Em uma visita à China, tive um encontro
com o ministro da Educação e ele me surpreendeu ao
revelar profundo conhecimento sobre a realidade de algumas das melhores
escolas do mundo, como as coreanas e finlandesas. Trata-se de algo
raríssimo de ver em qualquer outro país. A China,
evidentemente, ainda tem muito que melhorar na educação
– mas avança em ritmo veloz. Um novo estudo da OCDE
traz um dado espantoso. Em 2015, haverá duas vezes mais chineses
com diploma universitário do que na Europa e nos Estados
Unidos juntos. Tudo indica também que logo esses estudantes
terão acesso, em seu próprio país, a algumas
das melhores universidades do mundo.
Por que a China e outros países em desenvolvimento estão
à frente do Brasil? Antes de tudo, por um fator que pode
soar abstrato e até demagógico, mas é bastante
concreto: são países que decidiram colocar a educação
em primeiro lugar. Isso se traduz em medidas bem práticas
implantadas por alguns deles. Uma das mais eficazes diz respeito
à criação de incentivos para tornar a carreira
de professor atraente, de modo que passasse a ser escolhida pelos
estudantes mais talentosos. Essa é uma realidade bem longínqua
para muitos dos países em desenvolvimento, como o Brasil.
O fato de o salário do professor nesses países ser
maior é decisivo para atrair os melhores alunos para as faculdades
de pedagogia? Diria que esse é apenas um dos fatores –
mas não o principal. O que faz estudantes brilhantes optar
pela profissão de professor é, muito mais do que um
salário acima da média, um ambiente em que eles têm
o talento reconhecido e a capacidade intelectual estimulada. Além
disso, são dadas a eles várias opções
de carreira. Os professores podem se tornar diretores, como em qualquer
outro país, mas também almejar diferentes funções
longe da burocracia de uma escola: alguns atuam como uma espécie
de consultor de ensino, com a tarefa de treinar os menos experientes,
outros recebem a missão de desenvolver e adaptar currículos.
O fundamental para eles é saber que terão mais de
uma boa perspectiva nos próximos vinte anos.
Em geral, esses cargos que o senhor citou não existem nas
escolas brasileiras... São funções típicas
de países voltados para a idéia de proporcionar ambientes
favoráveis ao aprendizado. Essa obsessão se vê
o tempo todo no dia-a-dia de tais países. Durante uma viagem
à Coréia do Sul, presenciei uma cena emblemática
da preocupação das pessoas com o que se passa na sala
de aula. Enquanto os estudantes faziam a prova para o ingresso na
universidade, as principais avenidas de Seul ficaram fechadas para
o tráfego. Quando perguntei ao funcionário do Ministério
da Educação a razão daquilo, ele respondeu
com naturalidade: "Estudo exige silêncio. Que os motoristas
esperem".
A Coréia do Sul investe 7% do PIB na educação
e o Brasil 5%. É preciso aumentar o orçamento brasileiro?
Não necessariamente. É evidente que, na comparação
com outros países, o Brasil não só investe
pouco como, ainda, aplica a maior parte do dinheiro no pagamento
de salários de professores. As pesquisas chamam atenção,
no entanto, para um aspecto menos visível e mais relevante
do problema: as verbas disponíveis são muito mal gastas.
Com o atual orçamento, os brasileiros poderiam estar num
patamar melhor.
Em sua opinião, como o Brasil faria melhor uso do dinheiro
disponível? Reduzindo as altas taxas de repetência,
por exemplo. Os estudos mostram que um aluno reprovado se torna
20?000 dólares mais caro para o estado. Dar a esses estudantes
reforço na escola, de modo a evitar a reprovação,
sairia bem mais barato. Trata-se de um claro sinal de ineficiência
na gestão do dinheiro. Nessa velha ladainha sobre o aumento
de verbas para a educação, as pessoas deixam ainda
de lado outra questão bastante básica: de nada adianta
aumentar o orçamento e continuar a investir num sistema velho
e inoperante. É preciso lembrar, no entanto, que a má
aplicação das verbas públicas no ensino não
é uma exclusividade brasileira.
Por que o senhor diz isso? A educação é um
setor com índices de produtividade declinantes no mundo todo:
os custos só aumentam, ao passo que o ritmo de avanço
na sala de aula é lento demais. Justamente o inverso do que
ocorre com as grandes empresas privadas, que conseguem cortar gastos
e produzir mais e melhor. Não recebo aplausos quando digo
isso em minhas palestras. Tampouco faço sucesso ao afirmar
que poucos setores são tão atrasados quanto a educação.
A que o senhor atribui esse atraso? Os professores ainda conduzem
suas aulas guiados muito mais pelas próprias ideologias do
que por conhecimento científico. Na prática, eles
escolhem seguir linhas pedagógicas motivados por nada além
de crenças pessoais e deixam de enxergar aquilo que as pesquisas
apontam como verdadeiramente eficaz. Fico perplexo com o fato de
a neurociência, área que já permite observar
o cérebro diante de diferentes desafios intelectuais, ser
tão ignorada pelos educadores. Pior ainda: os educadores
são os maiores inimigos dessa ciência. Eles perdem
um tempo precioso ao repudiá-la.
Como a neurociência pode ajudar na escola? Caso consultassem
os neurocientistas, os pedagogos já saberiam, por exemplo,
algo bem básico sobre o aprendizado de uma língua
estrangeira: ele demanda uma imersão no idioma – impossível
de ser alcançada com aulas esporádicas ou curtas demais,
como é tão freqüente nas escolas. Essas aulas
têm efeito próximo a zero, como já foi comprovado
por meio da visualização da atividade cerebral. E
o que fazem as escolas diante disso? Nada. A educação
funciona hoje como a medicina 150 anos atrás.
Por que essa comparação? Os médicos trabalhavam
no século XIX como um professor de hoje: solitários
e movidos pela intuição. Tinham pouca clareza sobre
a relação de causa e efeito entre os fenômenos
sobre os quais se debruçavam. Numa visita a um hospital moderno,
essas imagens do passado remetem à Idade da Pedra. Profissionais
de diferentes currículos compõem equipes multidisciplinares,
amparam-se em novas tecnologias e trocam informações
o tempo todo. Se os Estados Unidos chegam a uma conclusão
de relevo científico, logo ela é aplicada no Japão.
Trata-se de um ambiente em permanente mutação. Nada
que faça lembrar o que se passa em boa parte das escolas.
"As escolas de hoje aplicam conceitos idênticos aos
dos colégios do século XIX. Elas se baseiam na divisão
do conhecimento por áreas estanques e no treinamento dos
alunos para a execução de tarefas repetitivas"
Por que elas são tão antiquadas? A maioria das escolas
ficou congelada no tempo desde o século XIX. Até hoje,
elas aplicam conceitos idênticos aos daqueles colégios
concebidos para tornar as pessoas compatíveis com a era industrial.
Um de seus pilares é a divisão do conhecimento por
áreas estanques e incomunicáveis. O outro é
o treinamento para a execução de tarefas repetitivas.
Enquanto focam demais em idéias do passado, as escolas deixam
de mirar uma questão-chave e bem mais atual: o fundamental
é que as pessoas aprendam a aplicar esse conhecimento em
novas e avançadas áreas – e que não apenas
o tenham armazenado. Alguns países já começam
a entender isso. Os rankings da OCDE mostram que o Brasil ainda
está um passo atrás.
A
FAMÍLIA ESTÁ ACABANDO” - Veja de 23 de Abril
de 2008
O psicanalista francês
Charles Melman, de 76 anos, foi íntimo colaborador de Jacques
Lacan (1901 – 1981), o principal herdeiro de Sigmund Freud
na França. Atendo observador da realidade contemporânea,
Melman sua os conceitos da psicanálise para interpretar as
mudanças em curso na sociedade atual, como a dissolução
do núcleo familiar. “Pela primeira vez na história,
a instituição familiar está desaparecendo,
e as conseqüências são imprevisíveis. Impressiona
que antropólogos e sociólogos não se interessem
por isso”, diz. A maneira mais original como ele aborda as
transformações sociais o coloca na condição
de um dos maiores nomes da psicanálise atualmente. Melman
estará no Rio de Janeiro nesta semana para participar de
um seminário promovido pela associação psicanalítica
Tempo Freudiano e para lançar seu mais recente livro A Prática
Psicanalítica Hoje. De Paris, onde mora, Melman conversou
com o repórter Ronaldo Soares, da sucursal do Rio de Janeiro
de VEJA. Seguem os principais pontos da entrevista.
FIM DA FAMÍLIA – Assistimos hoje
a um acontecimento que talvez não tenha precedente na história,
que é a dissolução do grupo familiar. Pela
primeira vez a instituição familiar está desaparecendo,
e as conseqüências são imprevisíveis. Impressiona-me
que os sociólogos e antropólogos não se interessem
muito por esse fenômeno. Nesse processo, podemos constatar
que o papel da autoridade do pai foi definitivamente demolida. Antes,
o menino tinha na figura do pai um rival e um modelo. Um rival que
despertava nele o gosto pela competição e um modelo
na busca do prazer sexual. Já para a menina, tratava-se de
um homem em que ela procurava se completar. Hoje, com o declínio
da figura paterna, nossos jovens podem estar menos propensos a batalhar
pelo sucesso, a estabelecer um ideal de vida e até a descobrir
o gosto pelo sexo.
JOVENS NO DIVÃ – Fico surpreso quando
constato que, se há uma clientela interessada e engajada
na psicanálise hoje em dia é de jovens dos 18 aos
30 anos. Eles não procuram um psicanalista pelo fato de reprimirem
seus desejos, mas porque não sabem o que desejam. É
uma situação totalmente original em relação
a Freud. Antes, a pessoa recorria à psicanálise porque
não ousava realizar seus desejos. Hoje, principalmente no
caso dos jovens, é por não saber o que desejar. Isso
acontece porque nossos jovens foram criados em condições
que promovem a busca rápida do prazer máximo e sem
obrigações. O problema é que essa forma de
lidar com o desejo produz situações de dificuldade
par aos jovens. Isso os leva ao divã.
BUSCA DO PRAZER – Muitos jovens encontram
dificuldade para desenvolver plenamente uma vida sexual. Isso parece
paradoxal, porque hoje em dia o sexo é muito acessível.
Mas na verdade essa facilidade leva à busca de uma vida sexual
sem compromisso, que proporcione um prazer ocasional., como o cinema,
a bebida ou a dança. Há aí uma mudança
interessante, talvez uma tentativa de se proteger em relação
ao compromisso que uma vida sexual pode evocar. A idéia é
aproveitar sem se engajar, mas isso impõe uma questão:
eles aproveitam plenamente? Esse é o fenômeno que chamei
de nova economia psíquica. Ele é fundado sobre o principio
da busca imediata de prazer máximo, sem freios nem restrições.
Esses momentos de prazer, que proporcionam uma satisfação
profunda, são vividos. Mas não organizam a existência,
nem o futuro. Ou seja, a existência é feita de uma
sucessão de momentos sem nenhuma projeção no
futuro, de momentos que podem desaparecer porque não terão
continuidade.
EXISTÊNCIA VIRTUAL – O mundo virtual
proporcionado pela Internet faz sucesso por se tratar de um mundo
lúdico. É um mundo coerente com a maneira de viver
dos jovens, não exige engajamento nem compromisso. Ali qualquer
um pode viver uma série de vidas sucessivas sem nenhum compromisso
definitivo. As pessoas querem se distanciar da realidade não
porque ela seja assustadora ou sem-graça, mas porque ela
implica sempre um limite. Além disso, a realidade requer
uma identidade, um objetivo mais ou menos claro na vida, ao passo
que esses exercícios virtuais não pressupõem
nenhuma identidade, nenhuma perspectiva e ainda derrubam todos os
limites, incluindo os do pudor e da polidez.
TERAPIAS BREVES X PSICANÁLISE – A
psicanálise não busca nenhum tipo de cura, não
se propõe a isso. Está, portanto, na contramão
da medicina, cuja história é rica em experiências
baseadas na cura, com métodos variados. Alguns desses métodos,
até pelos efeitos da sugestão, não são
ineficazes. Mas é preciso saber se nós preferimos
os métodos fundados sobre a sugestão ou se considerarmos
que é melhor privilegiar a livre atitude e o pensamento de
cada pessoa, e assim estimular nela sua autonomia de julgamento.
Nos períodos de crise moral, como o atual, proliferam os
métodos que prometem a cura. Aos que escolhem esse caminho,
só me resta desejar boa sorte.
ANTIDEPRESSIVOS E TRANQUILIZANTES – A saúde
hoje é algo que se calcula em bilhões de dólares.
É compreensível e até inevitável que
os laboratórios estimulem o alto consumo de medicamentos
como os psicotrópicos. A questão é que a hipermedicação
apresenta mais riscos do que vantagens. No caso das crianças,
por exemplo, isso fica evidente. Sobretudo no que diz respeito ao
uso precoce, recomendado pelos laboratórios, de neurolépticos
(inibidores de distúrbios psicóticos). Esses medicamentos
vêm sendo utilizados nas crianças para tratamento de
distúrbios da personalidade ou combater problemas como insônia
ou falta de apetite, entre outras coisas. Trata-se de algo absolutamente
condenável, com implicações nefastas tanto
sobre o desenvolvimento quanto ao estado físico da criança.
Outra conseqüência grave da hipermedicação
é a predisposição do individuo de desenvolver
dependência química. Primeiro, de remédios.
Mas em seguida, possivelmente, de produtos fora do mercado legal.
Com isso, poderemos chegar ao ponto em que a dependência vai
parecer uma situação absolutamente normal, porque
em muitos casos terá começado na infância.
PROZAC X FREUD – O Prozac e as idéias
de Freud convivem. Às vezes de forma harmoniosa, às
vezes não. A questão é: será que devemos
apostar em um procedimento que vai tratar os conjuntos dos problemas
psíquicos pelas drogas? Ou devemos continuar a levar em
conta, primeiramente, a livre escolha do sujeito e, em segundo
lugar, o próprio papel do corpo? Nesse sentido, um produto
como o Prozac desencadeia um curto-circuito. Dou um exemplo. Digamos
que surja amanhã uma droga que, agindo sobre centros cerebrais,
produza um prazer sexual bem superior ao que se pode obter com
o corpo. O que vamos preferir? Isso ou um acesso ao prazer sexual
que continua a passar pelo corpo, mas não tendo a mesma
qualidade do que pode ser proporcionado pela droga que atua diretamente
sobre o cérebro? Eis o tipo de questão que o Prozac
traz.
Suzana
Hereculano-Houzel é doutora em Neurociências
pela Université Paris VI, mestra em Ciências pela
Case Western Reserve University (Estados Unidos) e bióloga
formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde é
professora adjunta e pesquisa as regras celulares de construção
do sistema nervoso.
Carioca, 34 anos, é pesquisadora do CNPq e jovem cientista
do Estado do Rio de Janeiro, além de colunista da Folha
de São Paulo e autora de cinco livros de divulgação
científica. Em 2004, recebeu o prêmio José
Reis de Divulgação Científica - Menção
honrosa pelo conjunto de seu trabalho. Abaixo, um trecho de seu
mais novo livro - "Fique de bem com seu cérebro"
lançado em 2007 pela Editora Sextante. Leitura obrigatória
para quem gosta de saber mais sobre nosso "universo interior".
"O que mais de um século de pesquisa sobre o cérebro
pode fazer por você? Muito, eu diria – e cada vez
mais. Embora por muito tempo boa parte dos estudos nesse campo
tenha se concentrado nas doenças e nas causas variadas
da infelicidade e do mal-estar, uma bem-vinda ampliação
do enfoque nos últimos anos fez com que a neurociência
passasse a se interessar também pelo normal: como o cérebro
se mantém saudável, o que nos causa prazer e felicidade,
o que é o bem-estar e como alcança-lo.
O bem-estar envolve ficar de bem com o nosso cérebro: encontrar
a paz e felicidade com ele e, sobretudo, mantê-las. A neurociência
oferece informações preciosas sobre muitos dos fatores
mais importantes para atingirmos esse estado: a saúde mental
e física; a felicidade; a tristeza nas horas certas, a sensação
de controle sobre a nossa própria vida; o poder de nos expressar,
desejos e as nossas opiniões; interação social;
e o sentimento de termos um propósito de vida.
CUIDE BEM DE SUA SAÚDE FÍSICA
O cérebro precisa do corpo. Investir na saúde corporal
proporciona grandes benefícios para a saúde desse
órgão ao longo de toda a vida, sobretudo na velhice.
Os problemas do corpo doem no cérebro – é preciso
saber respeita-los e trata-los rapidamente. Tudo está bem
quando o corpo e a mente vão bem.
IDENTIFIQUE E CULTIVE OS SEUS PRAZERES
Longe de ser um luxo, a sensação de prazer é
a base do bem-estar. A antecipação de um mínimo
de prazer o de satisfação com o dia que teremos pela
frente é o que nos tira da cama pela manhã. É
também o que chamamos motivação. Essa busca
pelo bem-estar é o que nos move. Encontrar prazer na vida
é um enorme passo em direção à saúde
desse órgão. Procure identificar as suas fontes de
prazer e cultive-as: relações de amizade, relacionamentos
amorosos, trabalho, lazer e exercício físico e mental.
OUÇA SUA EMOÇÕES
O estado do corpo é a base das emoções: sentir
uma emoção é detectar as mudanças efetuadas
no corpo pelo cérebro. Hoje se aceita que as emoções
são parte fundamental das boas decisões. Elas nos
informam de imediato sobre o resultado de experiências semelhantes
que vivemos no passado, antes mesmo que tenhamos tempo de pensar
“racionalmente”; portanto, devem sempre ser levadas
em consideração. Se “alguma coisa” lhe
diz não, ouça: é o seu corpo mandando avisos
ao cérebro.
SORRIA E BUSQUE A FELICIDADE
A felicidade é o estado em que fica o cérebro que
vê tudo dando certo. Além de mudar o cérebro,
ela afeta o corpo e o torna mais saudável. Se tudo está
correndo bem e você está cheio de energia, ótimo.
Em alguns casos, no entanto, a felicidade e a motivação
são desmedidas, exageradas, e não refletem a realidade
da vida. Isso é uma indicação de mania, condição
que, à primeira vista, parece benção, mas que
se transforma rapidamente em maldição.
SAIBA A DIFERENÇA ENTRE TRISTEZA E DEPRESSÃO
A tristeza é uma emoção importante e útil.
Em algumas situações extremas, a tristeza profunda
é a única resposta razoável de um cérebro
saudável e não deve ser confundida com depressão.
Ela é perfeitamente justificável e tem que ser respeitada.
A depressão é a tristeza despropositada e precisa
ser tratada como caso clínico.
TENHA UMA ATITUDE POSITIVA
Uma atitude positiva em relação a vida é
fundamental. O otimismo favorece a ativação antecipada
do sistema de recompensa, aumenta a satisfação com
os feitos alcançados, amplia as chances de fazermos algo
realmente dar certo, nos permite lidar melhor com situações
negativas e até intensifica a resistência a doenças.
TIRE PROVEITO DO ESTRESSE AGUDO
É essencial que o cérebro e o corpo saibam identificar
situações ameaçadoras e reagir de acordo –
e “de acordo” é justamente a resposta ao estresse.
Se o cérebro não fosse capaz de distinguir situações
estressantes e reagir a elas, mal chegaríamos de pé
ao fim do dia. Por isso, uma resposta adequada é vital. O
estresse agudo tem efeitos benéficos sobre a memória
e sobre a resposta imunológica. A reação imediata
ao estresse é altamente desejável: se não for
muito intensa, ela facilita a memória e aumenta a imunidade.
APRENDA A LIDAR COM A ANSIEDADE
Além de simplesmente reagir, o cérebro sabe antecipar
possíveis situações estressantes. Algumas preocupações
são saudáveis e geram um estado de estresse antecipado,
chamado de ansiedade, que pode ser percebido como indesejável.
Em doses saudáveis, no entanto, essa habilidade é
uma benção, pois evita que o cérebro se coloque
em situações problemáticas. Preocupar-se é
importante – desde que nas horas certas.
FAÇA AS PÁZES COM OS REMÉDIOS
O bom funcionamento do cérebro depende de um equilíbrio
químico muito delicado, mantido com todo o cuidado por esse
próprio órgão. Às vezes, em decorrência
de variações genéticas, estresse intenso ou
doenças adquiridas, é necessário obter ajuda
externa para encontrar e manter esse equilíbrio por meio
de medicamentos que interferem na química cerebral. Algumas
pessoas resistem a usar esses remédios, enquanto outras acreditam,
equivocadamente, que os fitoterápicos são uma alternativa
mais segura. Há, ainda, quem fique tentado a consumir medicamentos
em busca de melhorias na memória e na capacidade de atenção
normais – mas alterar sem necessidade o equilíbrio
natural do cérebro não é uma boa idéia.
COMBATA O ESTRESSE CRÔNICO
O estresse vira vilão quando se torna crônico ou
impossível de evitar: queremos nos livrar dele, mas não
conseguimos. Uma resposta prolongada e exagerada ao estresse acaba
por tornar ruim para o corpo e o cérebro tudo o que inicialmente
era bom. A melhor maneira de não sofrer com o estresse crônico
é impedir que ele aconteça. Se isso for inviável,
será preciso aprender a lidar bem com ele.
EXERCITE-SE REGULARMENTE
Além de promover a saúde cardiovascular e, portanto,
também a do cérebro, o exercício fisco intenso
é um dos melhores estabilizadores de humor que a neurociência
moderna conhece. A atividade aeróbica combate a depressão
e a ansiedade, promove a produção de neurônios
novos no hipocampo, melhora a memória e aumenta a liberação
de substâncias neuroprotetoras, isto é, aquelas que
mantêm os neurônios saudáveis. Pelos seus efeitos
sobre o corpo e o cérebro, o exercício físico
regular é o que existe de mais próximo de um elixir
da juventude.
DURMA BEM E BASTANTE
O sono é fundamental para o bem-estar. Quando dormimos,
o cérebro descansa, mesmo sem parar de funcionar, e reorganiza
as memórias do dia. A falta de sono causa um estresse intenso
a esse órgão, além de uma série de problemas,
inclusive de memória. O sono é tão importante
que é auto-regulado: quanto menos dormimos, mais precisamos
dormir.
EDUQUE-SE E ASSUMA RESPONSABILIDADES
O cérebro tem uma capacidade incrível de aprender
e dispõe de tudo o que precisa para isso: o gosto pelo desafio,
o poder de usar a atenção para filtrar as informações
irrelevantes e a capacidade de se lembrar do que foi importante.
Desenvolver as suas habilidades mentais – ou seja, educar-se
– é um excelente meio de tornar o seu cérebro
ainda mais capaz de resolver problemas, ampliar as suas capacidades
e prolongar o bem-estar e a vida. Além disso, a instrução
é uma maneira de obter controle sobre a própria vida,
assumir responsabilidades e progredir socialmente, o que contribui
muito para o bem-estar.
CULTIVE OS SEUS RELACIONAMENTOS
Ocupar uma posição de subordinação
numa escala hierárquica é uma fonte importante de
estresse social, mas não é a única. Mamíferos
sociais, como o homem, não foram feitos para ficar sozinhos,
e o isolamento é um dos mais intensos fatores de estresse
social. Saber que contamos com o apoio de amigos e familiares é
fundamental. Além disso, o contato humano, na forma de abraços,
beijos e carinhos, garantem ao cérebro que não estamos
sós no mundo.
BUSQUE E OFEREÇA CARINHO
Talvez a maior descoberta da neurociência nos últimos
tempos seja o impacto do carinho sobre o cérebro. Na infância,
ele é a melhor indicação que o bebê
tem de que conta com alguém que o aquece, protege e alimenta.
Além disso, receber carinho nessa época ajuda o
cérebro a formar uma resposta saudável ao estresse.
Na vida adulta, o carinho é uma maneira poderosa de regular
a ansiedade e respostas exageradas ao estresse de maneira geral.
O mais importante, contudo, é que o carinho se autopropaga:
cérebros que o recebem se tornam mais carinhosos. Conquistar
o bem-estar e dar carinho aos nossos filhos é investir
desde já no bem-estar dos nossos netos. "
ENSINAR
A COMPETIR
Veja –Novembro – 2007
Entrevista com Eric Nadelstern
 A
FRENTE DE UMA REFORMA RADICAL NAS ESCOLAS DE NOVA YORK, O PROFESSOR
DIZ QUE, QUANTO MAIS MERITOCRACIA, MELHOR FICA O ENSINO.
O americano Eric Nadelstern, 57anos, tem um cargo pouco usual
para alguém que trabalha com escolas públicas. Ele
é CEO (Chief Executive Officer – diretor dos diretores)
na Secretaria de Educação na cidade de Nova York,
de onde comanda uma das reformas mais radicais já feitas
tendo como alvo uma rede tão grande de escolas públicas.
Desde 2002, quando o empresário Michael Bloomberg assumiu
a prefeitura de Nova York, é de Nadelstern a função
de implantar nas escolas um novo modelo sujos pilares são
a competição e a recompensa baseada no mérito,tal
qual no melhor setor privado. Os especialistas dizem que a reforma
implementada por ele merece a atenção dos governantes,
educadores e também dos pais, pelos bons resultados já
colhidos. Resume Nadelstern: “Temos uma escola de século
XXI com cara do século XIX. Precisamos de coisa melhor”.
Com uma carreira de 35 anos em escolas públicas de Nova
York, onde já deu aulas e exerceu todos os cargos possíveis
na hierarquia, poucas pessoas entendem tanto do assunto quanto
ele. Por essa razão, Nadelstern é convidado para
dar palestras no mundo inteiro. Casado e pai de uma filha, também
professora, ele concedeu a VEJA a seguinte entrevista.
Veja: É mesmo possível transformar escolas de má
qualidade em bons colégios ou é melhor fechá-las,
como ameaça Michael Bloomberg, prefeito de Nova York?
Nadelstern: É possível. O primeiro passo é
mudar radicalmente a velha cultura que abomina a competição
e a meritocracia no ambiente escolar. A ausência de competição
e de honra ao mérito é predominante não só
em colégios em desenvolvimento, como o Brasil, mas também
em escolas americanas. Em quase quarenta anos como professor e
pesquisador o assunto sempre me causou perplexidade o fato de
que, mesmo em um país como os Estados Unidos, alguns conceitos
mais fundamentais na sociedade sejam tratados nas escolas como
pecados capitais. É preciso superar esse ranço para,
aí sim, começar a sonhar com a melhoria do ensino.
Veja: Quais as medidas se revelaram mais eficazes em sua própria
experiência?
Nadelstern: De saída, concluímos que não
dá para ter bom ensino sem reunir na escola um grupo de
profissionais obcecados por acertar. Isso é algo que certamente
não aparece por geração espontânea,
pelo idealismo puro e simples. Para contar com uma tropa de gente
decidida a fazer determinada escola um exemplo de excelência,
é preciso antes de tudo lhe dar incentivos concretos, tal
qual ocorre em uma empresa privada. Não me refiro aqui
apenas ao aumento de salário, que também ajuda,
mas sobretudo a uma política de premiar com mais dinheiro
diretores e professores que alcancem os melhores resultados. A
Coréia do Sul já fez isso com sucesso e estamos
colocando a idéia em prática agora em Nova York.
Com a velha isonomia salarial, passamos uma mensagem equivocada
do menor esforço, segundo a qual dar a alma ao trabalho
não faz nenhum sentido. Queremos estimular justamente o
contrário.
Veja: Isso gerou protestos nas escolas?
Nadelstern: Às vezes. Mas o fato é que se foi o
tempo dos relatórios subjetivos produzidos por burocratas
do ensino, que dependiam do humor do avaliador. Chamavam a atenção
pelo festival de adjetivos e pela escassez de substantivos. Em
sociedades modernas tão afeitas às estatísticas,
não há por que não aferir a qualidade dos
professores atribuindo-lhes notas numa escala numérica.
As pessoas podem reclamar, mas o número é algo irrefutável.
Aplicamos provas aos alunos. Se a classe de um professor vai mal
numa série de testes, é um sinal de que ele está
falhando. Por outro lado, quanto mais consistente o avanço
nas notas, temos em mãos um poderoso indicador do seu talento
ao lecionar. São essas escolas que, no caso de Nova York,
recebem bônus no orçamento. Cabe ao diretor fazer
o rateio do prêmio, tendo pesado o mérito de cada
um para o resultado final. Ele é o gerente de fato.
Veja: Que tipo de interferência do estado,afinal, contribui
para o progresso em uma escola?
Nadelstern: Como em outros setores da economia, também
em uma rede de escolas públicas não faz sentido
que o governo seja o todo-poderoso, a quem elas devam consultar
sobre a compra de uma borracha ouum vazamento no telhado. No novo
sistema, os diretores recebem dinheiro da prefeitura e são
livres para administrar a escola como julgarem melhor. Como esperar
que os diretores sejam gestores tão eficazes quanto os
das grandes empresas se os privamos de poder? É ilógico.
Por essas e outras, as escolas públicas americanas costumam
ser lembradas pelos magos da administração como
exemplos de ineficiência e atraso. Com a autonomia, a história
é outra. Antes dela, apenas 13% do dinheiro que deveria
chegar às escolas seguia este destino. O restante era consumido
pela burocracia ou desaparecia nos ralos da corrupção.
Depois que a gestão ficou nas mãos dos diretores,70%
do dinheiro está nas escolas. A meta é chegar em
90%. Com isso, estou convencido de que o estado não tem
talento nem o dever de intervir no miúdo, mas é,
sim, seu papel estabelecer um conjunto eficiente de regras para
estimular o bom ensino – e, claro,cobrar resultados.
AS ESCOLAS EM GERAL CONTINUAM AFEITAS À VELHA DECOREBA,
EXCAIXOTADAS EM GRADES CURRICULARES ULTRAPASSADAS E INCAPAZES
DE PREPARAR AS CRIANÇAS PARA ENXERGAR AS QUESTÕES
DA ATUALIDADE DE MANEIRA MAIS ABRANGENTE.
Veja: Como exatamente o governo pode cobrar bom desempenho de
uma escola?
Nadelstern: Damos a autonomia e, em troca, o diretor assina um
contrato com a prefeitura em que se compromete a fazer seus estudantes
alcançarem uma determinada média de notas, a reduzir
a evasão, a combater a repetência, e por aí
vai. Se as escolas não cumprem tais metas, recebem menos
dinheiro do que as demais que mostram avanço nos indicadores.
Nas escolas em que o resultado é sempre péssimo,
não há saída senão demitir os diretores.
No mundo privado, não causa espanto que alguém de
alto escalão seja mandado embora por incapacidade de gestão.
Na escola pública, isso ainda é visto como uma injustiça.
Para mim, é mais um sinal de que as escolas têm muito
a aprender com as empresas.
Veja: Como atrair os melhores profissionais para as escolas públicas?
Nadelstern: A política de dar bônus por desempenho
é uma medida que, por si só, já enche os
olhos dos bons profissionais do mercado. Evidentemente, um ambiente
de trabalho em que ficarão equiparados à mediocridade
não lhes é atraente. Outro ponto fundamental, de
novo, é o fato das escolas serem autônomas, e não
mais dependentes do estado. É claro que um bom executivo
se sentirá mais desafiado com esse cenário. Também
é possível fisgar os melhores profissionais ao colocá-los
em funções estratégicas pelas quais serão
bem remunerados. Estou certo de que um dos nossos trunfos foi
ter conseguido recrutar alguns dos melhores acadêmicos de
universidades como Harward e Princenton e, ainda que em menor
proporção, trazer gente do setor privado para as
escolas. Alguns deles estão dando aulas de ciências
em escolas localizadas em áreas menos nobres e mais violentas.
Ninguém em são consciência por abrir mão
de um bom ensino em ciências, senão vai ficar para
trás. É também contra isso que estamos lutando
ao contratar os melhores acadêmicos do país.
Veja: O que seus estudos e a própria experiência
mostram sobre o combate ao crime nas escolas?
Nadelstern: Esse está longe de ser um problema exclusivo
da cidade de Nova York, tampouco de países pobres, como
o Brasil. Tenho observado nas últimas décadas o
modo como diversos educadores e governantes lidam com a criminalidade
no ambiente escolar e cheguei a duas conclusões sobre o
que ajuda a erradicá-la. Primeiro, é preciso adotar
medidas de segurança na escola, ainda que isso pareça
estranho a algumas pessoas. Defendo a minha posição
com base nos fatos, e não em ideologia. Em escolas de Nova
York antes dominadas por gangues, a violência despencou
desde a década de 90, quando foram instalados detectores
de metais na entrada e elas recrutaram agentes de segurança
treinados para lidar com essa situação. Em outra
frente, uma medida eficaz de mais longo prazo é reduzir
o tamanho das classes e da própria escola.
Veja: O senhor acha viável transformar um sistema público
de escolas gigantes e classes lotadas em uma rede de pequenos
colégios?
Nadelstern: Esse é um processo que pode consumir décadas,
mas,sim, está no campo do possível. Defendo isso
com base em pesquisas segundo as quais, de todos os fatores, o
tamanho da escola é o que mais influencia as chances de
um aluno de Nova York concluir o ensino médio e chegar
à universidade. Não estou dizendo que todas as escolas
de grande porte são ruins, nem que as pequenas são
sempre oásis de bom ensino, mas, na média, é
essa a realidade – e os pais devem ser informados sobre
isso ao matricular seus filhos. Do ponto de vista prático,
é evidente que não é viável para um
governo sair por aí comprando terrenos para construir mais
escolas. É possível, no entanto, transformar uma
escola grande em várias pequenas, fazendo uso do mesmo
prédio. Cada uma delas passa a ter diretor próprio,uma
equipe de professores e funcionamento de escola pequena.
Veja: E por que exatamente isso é bom?
Nadelstern: Em primeiro lugar, porque num ambiente menor os pais
passam a participar mais, segundo nos mostra uma pesquisa sobre
o assunto. Hoje as famílias estão, em geral, alheias
ao que se passa na escola. De um lado, porque têm dificuldade
em ser recebidos nas escolas – o que só atrapalha.
Outro ponto a favor das escolas pequenas é que, nelas,
os professores passam a conhecer um pouco melhor as necessidades
de seus alunos. uma de minhas cruzadas é justamente criar
nos colégios uma nova cultura, de modo que as aulas não
sejam tão dissociadas das reais demandas dos estudantes.
Veja: Como aproximar uma escola da necessidade de seus alunos?
Nadelstern: Insisto, de novo, na necessidade de aplicar provas
aos estudantes, nesse caso com o objetivo de saber o detalhe do
detalhe sobre o que eles aprenderam até aquele momento
do ano. Criamos seis testes anuais com essa finalidade. Isso mesmo:
a idéia é fazer o monitoramento permanente. Acredito
que só aí é possível ao professor
dar uma boa aula, mais de acordo com as necessidades dos alunos.
Infelizmente, o que observo sobre a maioria das escolas nos Estados
Unidos é que, em se tratando de ensino, oferta e demanda
ainda andam, basicamente, separadas. O professor fala sobre Platão
para estudantes que desconhecem os fundamentos da Grécia
antiga. Em aulas sobre a I Guerra, quase ninguém sabe onde
fica a Europa. Não tem como dar certo. Se os alunos ignoram
o básico,vamos lhes dar isso primeiro.
Veja: De que modo osenhor acha que dar prêmios em dinheiros
aos melhores estudantes, como ocorre em Nova York, pode ajudar
a melhorar esse cenário?
Nadelstern: A competição empurra as pessoas para
frente. Nas escolas, as crianças encaram como uma gincana,
na qual, para sair vencedoras, precisam estudar mais. Esse é
o objetivo. Os alunos gostam. Os pais adoram. Mas sindicalistas
e intelectuais lunáticos reclamam. Se a sociedade como
um todo cultua os rankings, não vejo por que ser diferente
no ambiente escolar, no qual supostamente se dá uma espécie
de treino para a vida real. Premiar é, afinal, uma maneira
de jogar luz sobre um conjunto de bons hábitos que devem
servir de modelo para os outros.
Veja: Como atrair para as escolas públicas 350 milhões
do setor privado, a exemplo do que ocorreu em Nova York?
Nadelstern: Lição número 1: não dá
para bater à porta de Bill Gates com um diagnóstico
de 1 000 páginas sobre a educação pública
e esperar que ele tenha tempo e disposição para
lançar-se a uma longa e enfadonha discussão teórica.
O que funciona é chegar com um projeto curto, de execução
palpável e custos definidos. Essa é a linguagem
do mercado. Repetimos sempre nos Estados Unidos que a diversidade
é a pedra fundamental de uma sociedade livre e democrática
- e, por essa razão, estamos em busca de perfis distintos
de escola. Ao passar o chapéu nas empresas, comecei a falar
em um novo “portfólio” de colégios,
e não mais em diversidade. Funcionou. Um país mais
pobre como o Brasil certamente poderia se beneficiar mais desse
tipo de prática.
Veja: Apesar de todos esses esforços, os indicadores de
ensino em Nova York ainda são ruins......
Nadelstern: Os resultados na educação são
sempre lentos, mas acho que, diante disso, avançamos a
uma velocidade bastante razoável. Há cinco anos,
50% dos estudantes concluíam o ensino básico em
Nova York. Hoje, são quase 60%. Ou seja, 20% mais gente.
É um indicador que seguimos na direção correta.
Estou bastante atento ao que outros países estão
fazendo para melhorar. Essa é uma obrigação
de qualquer homem público no mundo globalizado. Meu diagnóstico
geral é que as escolas têm cara do século
XIX em sociedades do século XXI. Elas continuam afeitas
à decoreba, encaixotadas em grades curriculares ultrapassadas
e incapazes de preparar as crianças para olhar os problemas
da atualidade de modo abrangente e desprovido de preconceito.
Os pais devem cobrar, sim, porque, no que diz respeito à
escola pública, seus filhos são reféns de
um serviço que se situa entre o mediano e o ruim; o velho
e o antiquado. Por tudo isso, estou convicto de que as escolas
precisam de um bom banho de modernidade.
Trechos do livro “A Prática da Pesquisa”
Cláudio de Moura Castro
Editara Pearson Prentice Hall
 -
As emoções e persuasões dos cientistas são
vitais para lhes dar o alento e a motivação para trabalhar.
Mas não podem interferir nos resultados. O cientista “torce”
para o time da sua teoria. Mas ele é também juiz e
dele exige-se a total imparcialidade ao contrastar a teoria com
os fatos.
- Orientei uma tese de mestrado de uma ex-aluna de Piaget. Seu
interesse era demonstrar que os testes de desenvolvimento cognitivo
com crianças, inventado pelo mestre de Genebra, capturavam
elementos que seriam mais independentes da origem social dos alunos
dos alunos do que os testes convencionais de inteligência
usados pelas escolas do Rio de Janeiro. O problema é eminentemente
tratável pelos métodos estatísticos tradicionais.
Sob minha orientação, a autora aplicou em algumas
turmas escolares os testes de Piaget e os testes da Secretaria de
Educação. Em seguida, estimou a correlação
de cada um desses testes com a origem social dos alunos. Acontece
que encontrou uma associação mais estreita entre classes
sociais e os testes de Piaget do que nos testes da Secretaria. Ou
seja, o método de Piaget era mais sensível ao ambiente
familiar do que o outro que ela tentava crucificar.
Contudo, seu comprometimento emocional com as idéias de Piaget
eram muito forte e ela não queria aceitar o que a sua própria
pesquisa estava mostrando. Sentia-se, de alguma forma, traidora
das idéias do grande mestre se mostrasse tais resultados.
Chegamos a um impasse e o prazo final de apresentação
de sua tese esgotou. Ela preferiu perder seu mestrado a descrever
os resultados estatísticos de suas pesquisas. A força
da fé foi maior do que a força da ciência.
Encontrei-me, pouco depois, com Jacques Voneche, sucessor de Piaget,
na Universidade de Genebra e relatei o fato. Ele se interessou pelo
assunto e enviei-lhe a (quase) tese. Ironicamente, do ponto de vista
da originalidade cientifica, os resultados encontrados eram mais
importantes, pois contrariavam uma crença da época.
Ou seja, a moça perdeu o mestrado, apesar de ter uma tese
mais original do que se houvesse encontrado os resultados que esperava.
EDUCAÇÃO BASEADA EM EVIDÊNCIA OU PALPITE?
“Os fatos não cessam de existir pelo fato de haverem
sido ignorados”. Anônimo.
A presente seção ilustra a falta de clareza que
existe na maioria das pessoas entre uma teoria e os dados que permitem
verificá-la. É preciso entender que os dados não
substituem uma teoria e que sem a teoria não vamos a nenhuma
parte. É também preciso entender que `opinião’
e `crença’ não fazem parte de tal discurso.
Ou temos respaldo para demonstrar que é assim ou não
se pode dizer nada.
Em um ensaio da revista Veja, publicada em 03 de agosto de 2006,
mostrei algumas estatísticas sobre o desempenho dos professores,
sugerindo que fossem levadas a sério, pois contrariavam o
senso comum. O ensaio provocou grande número de e-mails.
Alguns entenderam e louvaram a idéia de que é preciso
consultar o mundo real para ver se nossas teorias têm respaldo
nele. Mas muitos entenderam que se tratava de uma batalha de opiniões,
a minha contra a deles.
A discussão ilustra, de forma vivida, o contraste entre
a visão cientifica de buscar a evidência no mundo real
e uma percepção leiga da ciência ou do conhecimento
que não precisa da observação para ser considerada
verdadeira. Tomando tais reações contrárias
como ponto de partida, preparei um segundo ensaio, retomando o tema,
com ênfase no que é ciência e no papel da evidência
em sua lógica. O texto a seguir é baseado na combinação
dos dois ensaios.
Se consultarmos um médico bem formado, uma vez feito o
diagnóstico, ele vai escolher a terapia com base na experiência
vivida com pessoas que portavam a mesma síndrome e tomaram
diferentes remédios. Será receitada aquela droga cujas
estatísticas de sucesso são maiores do que as alternativas
disponíveis. Decide a evidência, e não a palavra
luminar ou a tradição. É a medicina baseada
na evidência, hoje aceita universalmente dentre os profissionais
de primeira linha.
Seria de imaginar que, na sala de aula, o critério devesse
ser o mesmo. A evidência do que deu mais certo orientaria
a escolha do método de alfabetizar, do livro ou da forma
de ensinar. Parece lógico, funciona na medicina. Mas, em
um número preocupante de casos, o professor não busca
e evidência acumulada para orientar sua sala de aula, apesar
de sua vida haver sido salva por seu medido – que usou estatísticas,
e não superstições, para escolher a terapia.
Por que será assim? Uma possível razão é
que a evidência científica é incontrolável
e pode revelar verdades desagradáveis.
Com auxilio de João Batista de Oliveira, apresento a seguir
algumas constatações constrangedoras e penosas. O
Sistema Nacional de Avaliação de Educação
Básica (Saeb) é uma prova tecnicamente bem-feita e
impecavelmente aplicada. Mostra o nível de aprendizado dos
alunos a ele submetidos. Tomando alunos da 4a série do ensino
fundamental e tabulando pelo perfil dos professores que tiveram,
podemos calcular as médias de cada subgrupo. Essa média
mostra quanto aprenderam os alunos que têm professores com
esse ou aquele perfil de formação.
Os alunos de professores que cursaram o magistério ou a
pedagogia têm notas piores do que os alunos de professores
que têm diploma de ensino superior de outras carreiras. Verificamos
também que aqueles que fizeram curso de especialização
têm alunos cujo rendimento também é inferior.
Aprende mais quem aprende com quem não é professor?
Não sabemos ao certo. Se for verdade, por que não
facilitamos aos que têm outros diplomas de curso superior
o acesso ao magistério? Hoje não podem ensinar, a
não ser que façam um curso longo e aparentemente inútil.
O Saeb mostra outras pistas interessantes. Buscando-se aqueles
fatores que mais aumentam o rendimento dos alunos, encontramos que
professores contratados pela CLT têm alunos com mais altos
rendimentos. Por que são melhores mestres do que os estatutários
e os contratados em regime precário? É o regime, ou
eles têm alunos diferentes? Igualmente, os alunos dos professores
que fizeram cursos de capacitação, abundantemente
oferecidos pelo país afora, não têm notas melhores.
Seriam inúteis esses cursos?
O Saeb nem é diagnóstico preciso nem terapia, apenas
um termômetro. Mostra a existência de um problema e
dá pistas para sua identificação em estudos
subseqüentes, com ferramentas mais elaboradas. Mas se acreditarmos
na educação baseada em evidência, não
podemos ignorar o sinal de alarme, sugerindo que algo vai mal.
O aluno deve aprender no livro. Mas a primeira cartilha para avaliar
os sistemas educativos é o Saeb. E, como está denunciando
verdades particularmente desagradáveis, não podemos
esperar que os prejudicados tomem iniciativas. Nada vai acontecer
sem a interferência de ouras forças vivas da sociedade.
Aqui terminava o primeiro ensaio, defendendo a idéia de
que as decisões em educação deveriam ser respaldadas
pela evidência cientifica que possa existir na área.
Portanto, as palavras encantadas dos gurus e as impressões
pessoais deveriam ser confrontadas com o mundo real. No parágrafo
abaixo, começa o segundo ensaio, reagindo aos e-mails gerados
pelo primeiro.
Imaginemos que tenho uma teoria sobre nutrição e
que essa desemboca na minha dieta para emagrecer. Se, pisando na
balança, descubro que meu peso aumentou, posso até
continuar insistindo na excelência da minha teoria e afirmando
que a balança não interessa. Mas, na lógica
da ciência, minha teoria está errada – salgo
enguiço da balança.
No exemplo acima, as minhas teorias nutricionais são checadas
pela balança – e destruída por ela. O mesmo
deve acontecer na educação e em qualquer área
que pleiteie o status de ciência. Precisamos de teorias e
interpretações, mas, se não têm correspondência
com a observação da realidade, não sobrevivem.
A realidade não substitui a teoria, mas fuzila sumariamente
a teoria que não se conforma com ela.
Recebi muitos e-mails louvando a idéia de que era saudável
olhar a evidência. Contudo, como sugerido pelos meus e-mails,
um número alarmante de professores pensa diferente. Para
eles:
(I) Não é olhando a evidência que se decide
entre o certo e o errado. Esta pode ser olimpicamente ignorada,
sendo um desaforo questionar as verdades reveladas.
(II) O que está escrito no texto não é considerado.
Portanto, tiram conclusões, assestam ataques e vituperam
contra o que acham haver sido dito mas que, na realidade, não
está escrito. O alvo principal das indignações
é o que consideram ser as minhas “opiniões”
contra os professores.
Várias mensagens contradizem, mais ou menos assim, uma afirmativa
que eu teria feito: “O Cláudio acha que os professores
sem diploma de professor são melhores do que os com diploma”.
Contrapõe que sua opinião é certa e a minha
errada.
Vejamos um e-mail representativo: “...fiquei indignada ao
saber que alguém pode pensar que professores formados em
pedagogia possam atuar menos em sala de aula em relação
a outros formados em outras disciplinas. Quem conhece o processo
ensino-aprendizagem das séries iniciais (...) jamais poderia
fazer tal afirmação. A avaliação citada
(do Saeb) não pode servir de parâmetro para qualquer
julgamento sobre a qualidade da educação”.
Contudo, rejeita-se o que eu não disse! Escrevi o seguinte:
“(Nas tabulações do Saeb), os alunos de professores
que cursaram o magistério ou a pedagogia têm notas
piores do que os alunos de professores que têm diploma superior
em outras carreiras”. O trecho é mera leitura de uma
tabela. Portanto, não é minha “opinião”.
Digo em seguida: “Aprende mais quem aprende com quem não
é professor? Não sabemos ao certo”. Veja-se
que a interpretação é apresentada na forma
de uma pergunta, convidando a um esforço de entender o porquê
de um resultado tão anti-intuitivo (o presente ensaio não
é propriamente sobre educação, mas sobre como
entender o mundo. Portanto, não entro aqui nas explicações
cabíveis).
Os missivistas negam a idéia de que encontramos tais respostas
mediante a observação do mundo real. Implicitamente,
afirmam o inverso, isto é, desvendamos o mundo real filosofando,
`achando’, dando palpites ou referindo-nos a uma observação
pessoal. É como se o Saeb fosse uma teoria alternativa que
pudéssemos escolher – quando, na verdade, é
o teste da teoria. É como a balança que verifica o
resultado das minhas teorias nutricionais – mas não
as substitui. Alias, será que essas mesmas pessoas gostariam
de consultar-se com um médico que receita por palpite?
As mensagens conduzem a outra interpretação paralela,
mas que tampouco é otimista: os missivistas não leram
com atenção o ensaio. Responderam emocionalmente ao
que pensam que o autor quis dizer. Só que o autor quis dizer
exatamente o que escreveu, e não o que imaginam haver dito.
Ou seja, nossos alunos estão aprendendo a ler com alguns
professores que não são capazes, eles próprios,
de decifrar com rigor um texto escrito.
Centrando nossa discussão no método cientifico e
nos pecados cometidos contra ele, encontramos dois deslizes sérios.
Em primeiro lugar, nega-se o papel da evidência factual como
o teste necessário para qualquer teoria. Em segundo lugar,
discute-se a partir do que não está escrito, ou seja,
viola-se a regra metodológica sagrada de que as palavras
e as proposições têm significados precisos.
Não há ciência séria sem um acordo a
respeito do que significam as palavras e do que está sendo
dito.
O exemplo apresentado ilustra também o preço que
a ciência tem de pagar ao ser tão exigente no seu método
e tão peremptória nas suas conclusões. O preço
é o alcance limitado do método cientifico para tratar
muitos problemas relevantes, alguns dos quais exigem decisões
de nossa parte.
Exploremos mais os exemplos citados. Apesar de a balança
ter mostrado um aumento de peso, não fico sabendo por que
isso aconteceu. Teria de usar métodos bem mais complexos
para avançar na minha compreensão.
Os não-professores têm alunos com maiores notas.
Isso ficamos sabendo. Mas é um resultado estranho, não
satisfaz. Teríamos de avançar muito mais nas análises
e dispor de informações mais completas para desvendar
o enigma.
Em ambos exemplos, o mundo real contraria as nossas expectativas,
mas não oferece de mão beijada as respostas que buscamos.
Ficamos proibidos de acreditar nas nossas teorias, pois foram dilaceradas
pelas evidências. Resta o desafio de aprofundar a análise,
na esperança de que consigamos entender melhor a realidade.
Em alguns casos isso é possível. Em outros, a ciência
empaca antes que tenhamos respostas.
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