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Pais e Professores

Pais, Educadores e Professores


Em nossa modesta opinião, os verdadeiros educadores são os pais. Rejeito o título de educador. Sou professor, me esforço para ser educador dos meus próprios filhos.
Segundo Içami Tiba, com vários livros lançados sobre o assunto como, por exemplo, "Quem Ama Educa" e vários outros, na verdade: "a escola não educa, ela qualifica o aluno educado".
Dentro deste contexto, separamos vários artigos de estudiosos da Educação, óbvia e compreensívelmente contrariados com a política educacional brasileira.
Abaixo, Poderão ser encontrados vários artigos de renomadas personalidades e estudiosos da educação como Cláudio de Moura Castro e o Secretário de Educação de Nova York, Eric Nadelstern. Muitos outros poderão ser lidos clicando nas barras secundárias logo abaixo de "PAIS E PROFESSORES" à esquerda.
Atenciosamente
Marcos das Neves Tucano

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MEDIR PARA AVANÇAR RÁPIDO
O físico alemão que comanda os rankings de educação da OCDE diz que o Brasil precisa copiar práticas que dão certo em outros países para deixar de vez o grupo dos piores.

Nenhum indicador sobre a qualidade de ensino tem tanto peso e repercussão quanto o Pisa, sigla em inglês para programa internacional de aferição de estudantes, que está sob os cuidados do físico alemão Andreas Schleicher, 44 anos. Há oito, ele é o responsável pela aplicação da prova, uma iniciativa da OCDE (organização que reúne as trinta nações mais desenvolvidas do mundo). Na comparação com 57 países, o Brasil sempre aparece entre os últimos colocados em todas as disciplinas. Situação que Schleicher conhece não apenas por estatísticas mas por suas viagens ao Brasil. Desde que assumiu o cargo, ele já visitou escolas em mais de 100 países – rotina que o mantém sempre longe de Paris, onde mora com a mulher e os três filhos.

Os brasileiros apareceram, mais uma vez, entre os piores estudantes do mundo nos últimos rankings de ensino da OCDE. O que o senhor descobriu ao analisar as provas desses estudantes? Elas não deixam dúvida quanto ao tipo de aluno que o Brasil forma hoje em escolas públicas e particulares. São estudantes que demonstram certa habilidade para decorar a matéria, mas se paralisam quando precisam estabelecer qualquer relação entre o que aprenderam na sala de aula e o mundo real. Esse é um diagnóstico grave. Em um momento em que se valoriza a capacidade de análise e síntese, os brasileiros são ensinados na escola a reproduzir conteúdos quilométricos sem muita utilidade prática. Enquanto o Brasil foca no irrelevante, os países que oferecem bom ensino já entenderam que uma sociedade moderna precisa contar com pessoas de mente mais flexível. Elas devem ser capazes de raciocinar sobre questões das quais jamais ouviram falar – no exato instante em que se apresentam.

Depois de mais de uma década de avaliações, o senhor vê avanços no caso brasileiro? Os resultados, apesar de ruins, são sempre um pouco melhores em relação aos anteriores. Além disso, o Brasil passou a ter chance de avançar no momento em que começou a mapear os problemas de maneira objetiva – e não mais com base na intuição de alguns governantes. Isso é básico. Não dá para pensar em melhorar algo que não foi sequer dimensionado. Daí a importância da comparação internacional. Ao olhar os rankings, pais, educadores e autoridades podem começar a fazer comparações e constatar o óbvio: suas escolas estão bem atrás das dos países da OCDE.

O senhor costuma ser procurado por brasileiros insatisfeitos com os resultados? Isso acontece. Ao saberem do fiasco nos últimos rankings, alguns políticos e especialistas de mentalidade mais atrasada me ligaram revoltados. Diziam: "Vocês estão exigindo dos alunos que falem sobre situações distantes demais da realidade deles. É injusto". A miopia dessa gente a impede de enxergar que o fato de estudantes chineses ou americanos terem a resposta para tais questões não revela apenas um despreparo dos brasileiros, mas mostra também como eles estão em desvantagem na competição com os demais. Não são, no entanto, os únicos a reagir mal.

Quem mais reclama? Basicamente, todo mundo que não aparece no topo. Basta sair um ranking novo que meu telefone não pára de tocar. Apenas há pouco tempo, as autoridades passaram a usar esse medidor tão eficaz para aferir as próprias deficiências e apontar saídas com base em experiências que dão certo em outros países. Apesar de uma relativa abertura para observar o que se passa em escolas de outros cantos do mundo, espanta como a educação ainda é uma área tão pouco globalizada em sociedades tão modernas.

Por que outros setores são mais globalizados do que a educação? Ao ficarem circunscritos às suas fronteiras e resistirem à idéia de aprender com a experiência alheia, os países estão movidos por uma espécie de orgulho patriótico sem sentido. O pensamento geral é algo como: "Cada um sabe o que é melhor para suas salas de aula". Essa mesma lógica do isolamento intelectual se repete entre as escolas e, mais surpreendente ainda, entre professores de um mesmo colégio. Pergunte a um deles o que o colega da sala ao lado está fazendo para resolver um problema comum a ambos e ouvirá como resposta: "Não tenho a mais vaga idéia". Nesse cenário, a China é uma ótima exceção e já começa a colher os efeitos positivos.

"Os chineses não têm constrangimento em copiar o que funciona em outros países. Ao contrário: eles são movidos por isso. É uma das razões para progredir a uma velocidade tão espantosa, enquanto os brasileiros melhoram em ritmo mais lento"


O que há de extraordinário no exemplo chinês? Os chineses não demonstram constrangimento em copiar o que funciona nos outros países. Ao contrário: eles são movidos por isso. Em uma visita à China, tive um encontro com o ministro da Educação e ele me surpreendeu ao revelar profundo conhecimento sobre a realidade de algumas das melhores escolas do mundo, como as coreanas e finlandesas. Trata-se de algo raríssimo de ver em qualquer outro país. A China, evidentemente, ainda tem muito que melhorar na educação – mas avança em ritmo veloz. Um novo estudo da OCDE traz um dado espantoso. Em 2015, haverá duas vezes mais chineses com diploma universitário do que na Europa e nos Estados Unidos juntos. Tudo indica também que logo esses estudantes terão acesso, em seu próprio país, a algumas das melhores universidades do mundo.

Por que a China e outros países em desenvolvimento estão à frente do Brasil? Antes de tudo, por um fator que pode soar abstrato e até demagógico, mas é bastante concreto: são países que decidiram colocar a educação em primeiro lugar. Isso se traduz em medidas bem práticas implantadas por alguns deles. Uma das mais eficazes diz respeito à criação de incentivos para tornar a carreira de professor atraente, de modo que passasse a ser escolhida pelos estudantes mais talentosos. Essa é uma realidade bem longínqua para muitos dos países em desenvolvimento, como o Brasil.

O fato de o salário do professor nesses países ser maior é decisivo para atrair os melhores alunos para as faculdades de pedagogia? Diria que esse é apenas um dos fatores – mas não o principal. O que faz estudantes brilhantes optar pela profissão de professor é, muito mais do que um salário acima da média, um ambiente em que eles têm o talento reconhecido e a capacidade intelectual estimulada. Além disso, são dadas a eles várias opções de carreira. Os professores podem se tornar diretores, como em qualquer outro país, mas também almejar diferentes funções longe da burocracia de uma escola: alguns atuam como uma espécie de consultor de ensino, com a tarefa de treinar os menos experientes, outros recebem a missão de desenvolver e adaptar currículos. O fundamental para eles é saber que terão mais de uma boa perspectiva nos próximos vinte anos.

Em geral, esses cargos que o senhor citou não existem nas escolas brasileiras... São funções típicas de países voltados para a idéia de proporcionar ambientes favoráveis ao aprendizado. Essa obsessão se vê o tempo todo no dia-a-dia de tais países. Durante uma viagem à Coréia do Sul, presenciei uma cena emblemática da preocupação das pessoas com o que se passa na sala de aula. Enquanto os estudantes faziam a prova para o ingresso na universidade, as principais avenidas de Seul ficaram fechadas para o tráfego. Quando perguntei ao funcionário do Ministério da Educação a razão daquilo, ele respondeu com naturalidade: "Estudo exige silêncio. Que os motoristas esperem".

A Coréia do Sul investe 7% do PIB na educação e o Brasil 5%. É preciso aumentar o orçamento brasileiro? Não necessariamente. É evidente que, na comparação com outros países, o Brasil não só investe pouco como, ainda, aplica a maior parte do dinheiro no pagamento de salários de professores. As pesquisas chamam atenção, no entanto, para um aspecto menos visível e mais relevante do problema: as verbas disponíveis são muito mal gastas. Com o atual orçamento, os brasileiros poderiam estar num patamar melhor.

Em sua opinião, como o Brasil faria melhor uso do dinheiro disponível? Reduzindo as altas taxas de repetência, por exemplo. Os estudos mostram que um aluno reprovado se torna 20?000 dólares mais caro para o estado. Dar a esses estudantes reforço na escola, de modo a evitar a reprovação, sairia bem mais barato. Trata-se de um claro sinal de ineficiência na gestão do dinheiro. Nessa velha ladainha sobre o aumento de verbas para a educação, as pessoas deixam ainda de lado outra questão bastante básica: de nada adianta aumentar o orçamento e continuar a investir num sistema velho e inoperante. É preciso lembrar, no entanto, que a má aplicação das verbas públicas no ensino não é uma exclusividade brasileira.

Por que o senhor diz isso? A educação é um setor com índices de produtividade declinantes no mundo todo: os custos só aumentam, ao passo que o ritmo de avanço na sala de aula é lento demais. Justamente o inverso do que ocorre com as grandes empresas privadas, que conseguem cortar gastos e produzir mais e melhor. Não recebo aplausos quando digo isso em minhas palestras. Tampouco faço sucesso ao afirmar que poucos setores são tão atrasados quanto a educação.

A que o senhor atribui esse atraso? Os professores ainda conduzem suas aulas guiados muito mais pelas próprias ideologias do que por conhecimento científico. Na prática, eles escolhem seguir linhas pedagógicas motivados por nada além de crenças pessoais e deixam de enxergar aquilo que as pesquisas apontam como verdadeiramente eficaz. Fico perplexo com o fato de a neurociência, área que já permite observar o cérebro diante de diferentes desafios intelectuais, ser tão ignorada pelos educadores. Pior ainda: os educadores são os maiores inimigos dessa ciência. Eles perdem um tempo precioso ao repudiá-la.

Como a neurociência pode ajudar na escola? Caso consultassem os neurocientistas, os pedagogos já saberiam, por exemplo, algo bem básico sobre o aprendizado de uma língua estrangeira: ele demanda uma imersão no idioma – impossível de ser alcançada com aulas esporádicas ou curtas demais, como é tão freqüente nas escolas. Essas aulas têm efeito próximo a zero, como já foi comprovado por meio da visualização da atividade cerebral. E o que fazem as escolas diante disso? Nada. A educação funciona hoje como a medicina 150 anos atrás.

Por que essa comparação? Os médicos trabalhavam no século XIX como um professor de hoje: solitários e movidos pela intuição. Tinham pouca clareza sobre a relação de causa e efeito entre os fenômenos sobre os quais se debruçavam. Numa visita a um hospital moderno, essas imagens do passado remetem à Idade da Pedra. Profissionais de diferentes currículos compõem equipes multidisciplinares, amparam-se em novas tecnologias e trocam informações o tempo todo. Se os Estados Unidos chegam a uma conclusão de relevo científico, logo ela é aplicada no Japão. Trata-se de um ambiente em permanente mutação. Nada que faça lembrar o que se passa em boa parte das escolas.

"As escolas de hoje aplicam conceitos idênticos aos dos colégios do século XIX. Elas se baseiam na divisão do conhecimento por áreas estanques e no treinamento dos alunos para a execução de tarefas repetitivas"

Por que elas são tão antiquadas? A maioria das escolas ficou congelada no tempo desde o século XIX. Até hoje, elas aplicam conceitos idênticos aos daqueles colégios concebidos para tornar as pessoas compatíveis com a era industrial. Um de seus pilares é a divisão do conhecimento por áreas estanques e incomunicáveis. O outro é o treinamento para a execução de tarefas repetitivas. Enquanto focam demais em idéias do passado, as escolas deixam de mirar uma questão-chave e bem mais atual: o fundamental é que as pessoas aprendam a aplicar esse conhecimento em novas e avançadas áreas – e que não apenas o tenham armazenado. Alguns países já começam a entender isso. Os rankings da OCDE mostram que o Brasil ainda está um passo atrás.

A FAMÍLIA ESTÁ ACABANDO” - Veja de 23 de Abril de 2008

O psicanalista francês Charles Melman, de 76 anos, foi íntimo colaborador de Jacques Lacan (1901 – 1981), o principal herdeiro de Sigmund Freud na França. Atendo observador da realidade contemporânea, Melman sua os conceitos da psicanálise para interpretar as mudanças em curso na sociedade atual, como a dissolução do núcleo familiar. “Pela primeira vez na história, a instituição familiar está desaparecendo, e as conseqüências são imprevisíveis. Impressiona que antropólogos e sociólogos não se interessem por isso”, diz. A maneira mais original como ele aborda as transformações sociais o coloca na condição de um dos maiores nomes da psicanálise atualmente. Melman estará no Rio de Janeiro nesta semana para participar de um seminário promovido pela associação psicanalítica Tempo Freudiano e para lançar seu mais recente livro A Prática Psicanalítica Hoje. De Paris, onde mora, Melman conversou com o repórter Ronaldo Soares, da sucursal do Rio de Janeiro de VEJA. Seguem os principais pontos da entrevista.

FIM DA FAMÍLIA – Assistimos hoje a um acontecimento que talvez não tenha precedente na história, que é a dissolução do grupo familiar. Pela primeira vez a instituição familiar está desaparecendo, e as conseqüências são imprevisíveis. Impressiona-me que os sociólogos e antropólogos não se interessem muito por esse fenômeno. Nesse processo, podemos constatar que o papel da autoridade do pai foi definitivamente demolida. Antes, o menino tinha na figura do pai um rival e um modelo. Um rival que despertava nele o gosto pela competição e um modelo na busca do prazer sexual. Já para a menina, tratava-se de um homem em que ela procurava se completar. Hoje, com o declínio da figura paterna, nossos jovens podem estar menos propensos a batalhar pelo sucesso, a estabelecer um ideal de vida e até a descobrir o gosto pelo sexo.

JOVENS NO DIVÃ – Fico surpreso quando constato que, se há uma clientela interessada e engajada na psicanálise hoje em dia é de jovens dos 18 aos 30 anos. Eles não procuram um psicanalista pelo fato de reprimirem seus desejos, mas porque não sabem o que desejam. É uma situação totalmente original em relação a Freud. Antes, a pessoa recorria à psicanálise porque não ousava realizar seus desejos. Hoje, principalmente no caso dos jovens, é por não saber o que desejar. Isso acontece porque nossos jovens foram criados em condições que promovem a busca rápida do prazer máximo e sem obrigações. O problema é que essa forma de lidar com o desejo produz situações de dificuldade par aos jovens. Isso os leva ao divã.

BUSCA DO PRAZER – Muitos jovens encontram dificuldade para desenvolver plenamente uma vida sexual. Isso parece paradoxal, porque hoje em dia o sexo é muito acessível. Mas na verdade essa facilidade leva à busca de uma vida sexual sem compromisso, que proporcione um prazer ocasional., como o cinema, a bebida ou a dança. Há aí uma mudança interessante, talvez uma tentativa de se proteger em relação ao compromisso que uma vida sexual pode evocar. A idéia é aproveitar sem se engajar, mas isso impõe uma questão: eles aproveitam plenamente? Esse é o fenômeno que chamei de nova economia psíquica. Ele é fundado sobre o principio da busca imediata de prazer máximo, sem freios nem restrições. Esses momentos de prazer, que proporcionam uma satisfação profunda, são vividos. Mas não organizam a existência, nem o futuro. Ou seja, a existência é feita de uma sucessão de momentos sem nenhuma projeção no futuro, de momentos que podem desaparecer porque não terão continuidade.

EXISTÊNCIA VIRTUAL – O mundo virtual proporcionado pela Internet faz sucesso por se tratar de um mundo lúdico. É um mundo coerente com a maneira de viver dos jovens, não exige engajamento nem compromisso. Ali qualquer um pode viver uma série de vidas sucessivas sem nenhum compromisso definitivo. As pessoas querem se distanciar da realidade não porque ela seja assustadora ou sem-graça, mas porque ela implica sempre um limite. Além disso, a realidade requer uma identidade, um objetivo mais ou menos claro na vida, ao passo que esses exercícios virtuais não pressupõem nenhuma identidade, nenhuma perspectiva e ainda derrubam todos os limites, incluindo os do pudor e da polidez.

TERAPIAS BREVES X PSICANÁLISE – A psicanálise não busca nenhum tipo de cura, não se propõe a isso. Está, portanto, na contramão da medicina, cuja história é rica em experiências baseadas na cura, com métodos variados. Alguns desses métodos, até pelos efeitos da sugestão, não são ineficazes. Mas é preciso saber se nós preferimos os métodos fundados sobre a sugestão ou se considerarmos que é melhor privilegiar a livre atitude e o pensamento de cada pessoa, e assim estimular nela sua autonomia de julgamento. Nos períodos de crise moral, como o atual, proliferam os métodos que prometem a cura. Aos que escolhem esse caminho, só me resta desejar boa sorte.

ANTIDEPRESSIVOS E TRANQUILIZANTES – A saúde hoje é algo que se calcula em bilhões de dólares. É compreensível e até inevitável que os laboratórios estimulem o alto consumo de medicamentos como os psicotrópicos. A questão é que a hipermedicação apresenta mais riscos do que vantagens. No caso das crianças, por exemplo, isso fica evidente. Sobretudo no que diz respeito ao uso precoce, recomendado pelos laboratórios, de neurolépticos (inibidores de distúrbios psicóticos). Esses medicamentos vêm sendo utilizados nas crianças para tratamento de distúrbios da personalidade ou combater problemas como insônia ou falta de apetite, entre outras coisas. Trata-se de algo absolutamente condenável, com implicações nefastas tanto sobre o desenvolvimento quanto ao estado físico da criança. Outra conseqüência grave da hipermedicação é a predisposição do individuo de desenvolver dependência química. Primeiro, de remédios. Mas em seguida, possivelmente, de produtos fora do mercado legal. Com isso, poderemos chegar ao ponto em que a dependência vai parecer uma situação absolutamente normal, porque em muitos casos terá começado na infância.

PROZAC X FREUD – O Prozac e as idéias de Freud convivem. Às vezes de forma harmoniosa, às vezes não. A questão é: será que devemos apostar em um procedimento que vai tratar os conjuntos dos problemas psíquicos pelas drogas? Ou devemos continuar a levar em conta, primeiramente, a livre escolha do sujeito e, em segundo lugar, o próprio papel do corpo? Nesse sentido, um produto como o Prozac desencadeia um curto-circuito. Dou um exemplo. Digamos que surja amanhã uma droga que, agindo sobre centros cerebrais, produza um prazer sexual bem superior ao que se pode obter com o corpo. O que vamos preferir? Isso ou um acesso ao prazer sexual que continua a passar pelo corpo, mas não tendo a mesma qualidade do que pode ser proporcionado pela droga que atua diretamente sobre o cérebro? Eis o tipo de questão que o Prozac traz.

Suzana Hereculano-Houzel é doutora em Neurociências pela Université Paris VI, mestra em Ciências pela Case Western Reserve University (Estados Unidos) e bióloga formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde é professora adjunta e pesquisa as regras celulares de construção do sistema nervoso.
Carioca, 34 anos, é pesquisadora do CNPq e jovem cientista do Estado do Rio de Janeiro, além de colunista da Folha de São Paulo e autora de cinco livros de divulgação científica. Em 2004, recebeu o prêmio José Reis de Divulgação Científica - Menção honrosa pelo conjunto de seu trabalho. Abaixo, um trecho de seu mais novo livro - "Fique de bem com seu cérebro" lançado em 2007 pela Editora Sextante. Leitura obrigatória para quem gosta de saber mais sobre nosso "universo interior".

"O que mais de um século de pesquisa sobre o cérebro pode fazer por você? Muito, eu diria – e cada vez mais. Embora por muito tempo boa parte dos estudos nesse campo tenha se concentrado nas doenças e nas causas variadas da infelicidade e do mal-estar, uma bem-vinda ampliação do enfoque nos últimos anos fez com que a neurociência passasse a se interessar também pelo normal: como o cérebro se mantém saudável, o que nos causa prazer e felicidade, o que é o bem-estar e como alcança-lo.

O bem-estar envolve ficar de bem com o nosso cérebro: encontrar a paz e felicidade com ele e, sobretudo, mantê-las. A neurociência oferece informações preciosas sobre muitos dos fatores mais importantes para atingirmos esse estado: a saúde mental e física; a felicidade; a tristeza nas horas certas, a sensação de controle sobre a nossa própria vida; o poder de nos expressar, desejos e as nossas opiniões; interação social; e o sentimento de termos um propósito de vida.

CUIDE BEM DE SUA SAÚDE FÍSICA

O cérebro precisa do corpo. Investir na saúde corporal proporciona grandes benefícios para a saúde desse órgão ao longo de toda a vida, sobretudo na velhice. Os problemas do corpo doem no cérebro – é preciso saber respeita-los e trata-los rapidamente. Tudo está bem quando o corpo e a mente vão bem.

IDENTIFIQUE E CULTIVE OS SEUS PRAZERES

Longe de ser um luxo, a sensação de prazer é a base do bem-estar. A antecipação de um mínimo de prazer o de satisfação com o dia que teremos pela frente é o que nos tira da cama pela manhã. É também o que chamamos motivação. Essa busca pelo bem-estar é o que nos move. Encontrar prazer na vida é um enorme passo em direção à saúde desse órgão. Procure identificar as suas fontes de prazer e cultive-as: relações de amizade, relacionamentos amorosos, trabalho, lazer e exercício físico e mental.

OUÇA SUA EMOÇÕES

O estado do corpo é a base das emoções: sentir uma emoção é detectar as mudanças efetuadas no corpo pelo cérebro. Hoje se aceita que as emoções são parte fundamental das boas decisões. Elas nos informam de imediato sobre o resultado de experiências semelhantes que vivemos no passado, antes mesmo que tenhamos tempo de pensar “racionalmente”; portanto, devem sempre ser levadas em consideração. Se “alguma coisa” lhe diz não, ouça: é o seu corpo mandando avisos ao cérebro.

SORRIA E BUSQUE A FELICIDADE

A felicidade é o estado em que fica o cérebro que vê tudo dando certo. Além de mudar o cérebro, ela afeta o corpo e o torna mais saudável. Se tudo está correndo bem e você está cheio de energia, ótimo. Em alguns casos, no entanto, a felicidade e a motivação são desmedidas, exageradas, e não refletem a realidade da vida. Isso é uma indicação de mania, condição que, à primeira vista, parece benção, mas que se transforma rapidamente em maldição.

SAIBA A DIFERENÇA ENTRE TRISTEZA E DEPRESSÃO

A tristeza é uma emoção importante e útil. Em algumas situações extremas, a tristeza profunda é a única resposta razoável de um cérebro saudável e não deve ser confundida com depressão. Ela é perfeitamente justificável e tem que ser respeitada. A depressão é a tristeza despropositada e precisa ser tratada como caso clínico.

TENHA UMA ATITUDE POSITIVA

Uma atitude positiva em relação a vida é fundamental. O otimismo favorece a ativação antecipada do sistema de recompensa, aumenta a satisfação com os feitos alcançados, amplia as chances de fazermos algo realmente dar certo, nos permite lidar melhor com situações negativas e até intensifica a resistência a doenças.

TIRE PROVEITO DO ESTRESSE AGUDO

É essencial que o cérebro e o corpo saibam identificar situações ameaçadoras e reagir de acordo – e “de acordo” é justamente a resposta ao estresse. Se o cérebro não fosse capaz de distinguir situações estressantes e reagir a elas, mal chegaríamos de pé ao fim do dia. Por isso, uma resposta adequada é vital. O estresse agudo tem efeitos benéficos sobre a memória e sobre a resposta imunológica. A reação imediata ao estresse é altamente desejável: se não for muito intensa, ela facilita a memória e aumenta a imunidade.

APRENDA A LIDAR COM A ANSIEDADE

Além de simplesmente reagir, o cérebro sabe antecipar possíveis situações estressantes. Algumas preocupações são saudáveis e geram um estado de estresse antecipado, chamado de ansiedade, que pode ser percebido como indesejável. Em doses saudáveis, no entanto, essa habilidade é uma benção, pois evita que o cérebro se coloque em situações problemáticas. Preocupar-se é importante – desde que nas horas certas.

FAÇA AS PÁZES COM OS REMÉDIOS

O bom funcionamento do cérebro depende de um equilíbrio químico muito delicado, mantido com todo o cuidado por esse próprio órgão. Às vezes, em decorrência de variações genéticas, estresse intenso ou doenças adquiridas, é necessário obter ajuda externa para encontrar e manter esse equilíbrio por meio de medicamentos que interferem na química cerebral. Algumas pessoas resistem a usar esses remédios, enquanto outras acreditam, equivocadamente, que os fitoterápicos são uma alternativa mais segura. Há, ainda, quem fique tentado a consumir medicamentos em busca de melhorias na memória e na capacidade de atenção normais – mas alterar sem necessidade o equilíbrio natural do cérebro não é uma boa idéia.

COMBATA O ESTRESSE CRÔNICO

O estresse vira vilão quando se torna crônico ou impossível de evitar: queremos nos livrar dele, mas não conseguimos. Uma resposta prolongada e exagerada ao estresse acaba por tornar ruim para o corpo e o cérebro tudo o que inicialmente era bom. A melhor maneira de não sofrer com o estresse crônico é impedir que ele aconteça. Se isso for inviável, será preciso aprender a lidar bem com ele.

EXERCITE-SE REGULARMENTE

Além de promover a saúde cardiovascular e, portanto, também a do cérebro, o exercício fisco intenso é um dos melhores estabilizadores de humor que a neurociência moderna conhece. A atividade aeróbica combate a depressão e a ansiedade, promove a produção de neurônios novos no hipocampo, melhora a memória e aumenta a liberação de substâncias neuroprotetoras, isto é, aquelas que mantêm os neurônios saudáveis. Pelos seus efeitos sobre o corpo e o cérebro, o exercício físico regular é o que existe de mais próximo de um elixir da juventude.

DURMA BEM E BASTANTE

O sono é fundamental para o bem-estar. Quando dormimos, o cérebro descansa, mesmo sem parar de funcionar, e reorganiza as memórias do dia. A falta de sono causa um estresse intenso a esse órgão, além de uma série de problemas, inclusive de memória. O sono é tão importante que é auto-regulado: quanto menos dormimos, mais precisamos dormir.

EDUQUE-SE E ASSUMA RESPONSABILIDADES

O cérebro tem uma capacidade incrível de aprender e dispõe de tudo o que precisa para isso: o gosto pelo desafio, o poder de usar a atenção para filtrar as informações irrelevantes e a capacidade de se lembrar do que foi importante. Desenvolver as suas habilidades mentais – ou seja, educar-se – é um excelente meio de tornar o seu cérebro ainda mais capaz de resolver problemas, ampliar as suas capacidades e prolongar o bem-estar e a vida. Além disso, a instrução é uma maneira de obter controle sobre a própria vida, assumir responsabilidades e progredir socialmente, o que contribui muito para o bem-estar.

CULTIVE OS SEUS RELACIONAMENTOS

Ocupar uma posição de subordinação numa escala hierárquica é uma fonte importante de estresse social, mas não é a única. Mamíferos sociais, como o homem, não foram feitos para ficar sozinhos, e o isolamento é um dos mais intensos fatores de estresse social. Saber que contamos com o apoio de amigos e familiares é fundamental. Além disso, o contato humano, na forma de abraços, beijos e carinhos, garantem ao cérebro que não estamos sós no mundo.

BUSQUE E OFEREÇA CARINHO

Talvez a maior descoberta da neurociência nos últimos tempos seja o impacto do carinho sobre o cérebro. Na infância, ele é a melhor indicação que o bebê tem de que conta com alguém que o aquece, protege e alimenta. Além disso, receber carinho nessa época ajuda o cérebro a formar uma resposta saudável ao estresse. Na vida adulta, o carinho é uma maneira poderosa de regular a ansiedade e respostas exageradas ao estresse de maneira geral. O mais importante, contudo, é que o carinho se autopropaga: cérebros que o recebem se tornam mais carinhosos. Conquistar o bem-estar e dar carinho aos nossos filhos é investir desde já no bem-estar dos nossos netos. "

ENSINAR A COMPETIR
Veja –Novembro – 2007
Entrevista com Eric Nadelstern

A FRENTE DE UMA REFORMA RADICAL NAS ESCOLAS DE NOVA YORK, O PROFESSOR DIZ QUE, QUANTO MAIS MERITOCRACIA, MELHOR FICA O ENSINO.

O americano Eric Nadelstern, 57anos, tem um cargo pouco usual para alguém que trabalha com escolas públicas. Ele é CEO (Chief Executive Officer – diretor dos diretores) na Secretaria de Educação na cidade de Nova York, de onde comanda uma das reformas mais radicais já feitas tendo como alvo uma rede tão grande de escolas públicas. Desde 2002, quando o empresário Michael Bloomberg assumiu a prefeitura de Nova York, é de Nadelstern a função de implantar nas escolas um novo modelo sujos pilares são a competição e a recompensa baseada no mérito,tal qual no melhor setor privado. Os especialistas dizem que a reforma implementada por ele merece a atenção dos governantes, educadores e também dos pais, pelos bons resultados já colhidos. Resume Nadelstern: “Temos uma escola de século XXI com cara do século XIX. Precisamos de coisa melhor”. Com uma carreira de 35 anos em escolas públicas de Nova York, onde já deu aulas e exerceu todos os cargos possíveis na hierarquia, poucas pessoas entendem tanto do assunto quanto ele. Por essa razão, Nadelstern é convidado para dar palestras no mundo inteiro. Casado e pai de uma filha, também professora, ele concedeu a VEJA a seguinte entrevista.

Veja: É mesmo possível transformar escolas de má qualidade em bons colégios ou é melhor fechá-las, como ameaça Michael Bloomberg, prefeito de Nova York?

Nadelstern: É possível. O primeiro passo é mudar radicalmente a velha cultura que abomina a competição e a meritocracia no ambiente escolar. A ausência de competição e de honra ao mérito é predominante não só em colégios em desenvolvimento, como o Brasil, mas também em escolas americanas. Em quase quarenta anos como professor e pesquisador o assunto sempre me causou perplexidade o fato de que, mesmo em um país como os Estados Unidos, alguns conceitos mais fundamentais na sociedade sejam tratados nas escolas como pecados capitais. É preciso superar esse ranço para, aí sim, começar a sonhar com a melhoria do ensino.

Veja: Quais as medidas se revelaram mais eficazes em sua própria experiência?

Nadelstern: De saída, concluímos que não dá para ter bom ensino sem reunir na escola um grupo de profissionais obcecados por acertar. Isso é algo que certamente não aparece por geração espontânea, pelo idealismo puro e simples. Para contar com uma tropa de gente decidida a fazer determinada escola um exemplo de excelência, é preciso antes de tudo lhe dar incentivos concretos, tal qual ocorre em uma empresa privada. Não me refiro aqui apenas ao aumento de salário, que também ajuda, mas sobretudo a uma política de premiar com mais dinheiro diretores e professores que alcancem os melhores resultados. A Coréia do Sul já fez isso com sucesso e estamos colocando a idéia em prática agora em Nova York. Com a velha isonomia salarial, passamos uma mensagem equivocada do menor esforço, segundo a qual dar a alma ao trabalho não faz nenhum sentido. Queremos estimular justamente o contrário.

Veja: Isso gerou protestos nas escolas?

Nadelstern: Às vezes. Mas o fato é que se foi o tempo dos relatórios subjetivos produzidos por burocratas do ensino, que dependiam do humor do avaliador. Chamavam a atenção pelo festival de adjetivos e pela escassez de substantivos. Em sociedades modernas tão afeitas às estatísticas, não há por que não aferir a qualidade dos professores atribuindo-lhes notas numa escala numérica. As pessoas podem reclamar, mas o número é algo irrefutável. Aplicamos provas aos alunos. Se a classe de um professor vai mal numa série de testes, é um sinal de que ele está falhando. Por outro lado, quanto mais consistente o avanço nas notas, temos em mãos um poderoso indicador do seu talento ao lecionar. São essas escolas que, no caso de Nova York, recebem bônus no orçamento. Cabe ao diretor fazer o rateio do prêmio, tendo pesado o mérito de cada um para o resultado final. Ele é o gerente de fato.

Veja: Que tipo de interferência do estado,afinal, contribui para o progresso em uma escola?

Nadelstern: Como em outros setores da economia, também em uma rede de escolas públicas não faz sentido que o governo seja o todo-poderoso, a quem elas devam consultar sobre a compra de uma borracha ouum vazamento no telhado. No novo sistema, os diretores recebem dinheiro da prefeitura e são livres para administrar a escola como julgarem melhor. Como esperar que os diretores sejam gestores tão eficazes quanto os das grandes empresas se os privamos de poder? É ilógico. Por essas e outras, as escolas públicas americanas costumam ser lembradas pelos magos da administração como exemplos de ineficiência e atraso. Com a autonomia, a história é outra. Antes dela, apenas 13% do dinheiro que deveria chegar às escolas seguia este destino. O restante era consumido pela burocracia ou desaparecia nos ralos da corrupção. Depois que a gestão ficou nas mãos dos diretores,70% do dinheiro está nas escolas. A meta é chegar em 90%. Com isso, estou convencido de que o estado não tem talento nem o dever de intervir no miúdo, mas é, sim, seu papel estabelecer um conjunto eficiente de regras para estimular o bom ensino – e, claro,cobrar resultados.

AS ESCOLAS EM GERAL CONTINUAM AFEITAS À VELHA DECOREBA, EXCAIXOTADAS EM GRADES CURRICULARES ULTRAPASSADAS E INCAPAZES DE PREPARAR AS CRIANÇAS PARA ENXERGAR AS QUESTÕES DA ATUALIDADE DE MANEIRA MAIS ABRANGENTE.

Veja: Como exatamente o governo pode cobrar bom desempenho de uma escola?

Nadelstern: Damos a autonomia e, em troca, o diretor assina um contrato com a prefeitura em que se compromete a fazer seus estudantes alcançarem uma determinada média de notas, a reduzir a evasão, a combater a repetência, e por aí vai. Se as escolas não cumprem tais metas, recebem menos dinheiro do que as demais que mostram avanço nos indicadores. Nas escolas em que o resultado é sempre péssimo, não há saída senão demitir os diretores. No mundo privado, não causa espanto que alguém de alto escalão seja mandado embora por incapacidade de gestão. Na escola pública, isso ainda é visto como uma injustiça. Para mim, é mais um sinal de que as escolas têm muito a aprender com as empresas.

Veja: Como atrair os melhores profissionais para as escolas públicas?

Nadelstern: A política de dar bônus por desempenho é uma medida que, por si só, já enche os olhos dos bons profissionais do mercado. Evidentemente, um ambiente de trabalho em que ficarão equiparados à mediocridade não lhes é atraente. Outro ponto fundamental, de novo, é o fato das escolas serem autônomas, e não mais dependentes do estado. É claro que um bom executivo se sentirá mais desafiado com esse cenário. Também é possível fisgar os melhores profissionais ao colocá-los em funções estratégicas pelas quais serão bem remunerados. Estou certo de que um dos nossos trunfos foi ter conseguido recrutar alguns dos melhores acadêmicos de universidades como Harward e Princenton e, ainda que em menor proporção, trazer gente do setor privado para as escolas. Alguns deles estão dando aulas de ciências em escolas localizadas em áreas menos nobres e mais violentas. Ninguém em são consciência por abrir mão de um bom ensino em ciências, senão vai ficar para trás. É também contra isso que estamos lutando ao contratar os melhores acadêmicos do país.

Veja: O que seus estudos e a própria experiência mostram sobre o combate ao crime nas escolas?

Nadelstern: Esse está longe de ser um problema exclusivo da cidade de Nova York, tampouco de países pobres, como o Brasil. Tenho observado nas últimas décadas o modo como diversos educadores e governantes lidam com a criminalidade no ambiente escolar e cheguei a duas conclusões sobre o que ajuda a erradicá-la. Primeiro, é preciso adotar medidas de segurança na escola, ainda que isso pareça estranho a algumas pessoas. Defendo a minha posição com base nos fatos, e não em ideologia. Em escolas de Nova York antes dominadas por gangues, a violência despencou desde a década de 90, quando foram instalados detectores de metais na entrada e elas recrutaram agentes de segurança treinados para lidar com essa situação. Em outra frente, uma medida eficaz de mais longo prazo é reduzir o tamanho das classes e da própria escola.

Veja: O senhor acha viável transformar um sistema público de escolas gigantes e classes lotadas em uma rede de pequenos colégios?

Nadelstern: Esse é um processo que pode consumir décadas, mas,sim, está no campo do possível. Defendo isso com base em pesquisas segundo as quais, de todos os fatores, o tamanho da escola é o que mais influencia as chances de um aluno de Nova York concluir o ensino médio e chegar à universidade. Não estou dizendo que todas as escolas de grande porte são ruins, nem que as pequenas são sempre oásis de bom ensino, mas, na média, é essa a realidade – e os pais devem ser informados sobre isso ao matricular seus filhos. Do ponto de vista prático, é evidente que não é viável para um governo sair por aí comprando terrenos para construir mais escolas. É possível, no entanto, transformar uma escola grande em várias pequenas, fazendo uso do mesmo prédio. Cada uma delas passa a ter diretor próprio,uma equipe de professores e funcionamento de escola pequena.

Veja: E por que exatamente isso é bom?

Nadelstern: Em primeiro lugar, porque num ambiente menor os pais passam a participar mais, segundo nos mostra uma pesquisa sobre o assunto. Hoje as famílias estão, em geral, alheias ao que se passa na escola. De um lado, porque têm dificuldade em ser recebidos nas escolas – o que só atrapalha. Outro ponto a favor das escolas pequenas é que, nelas, os professores passam a conhecer um pouco melhor as necessidades de seus alunos. uma de minhas cruzadas é justamente criar nos colégios uma nova cultura, de modo que as aulas não sejam tão dissociadas das reais demandas dos estudantes.

Veja: Como aproximar uma escola da necessidade de seus alunos?

Nadelstern: Insisto, de novo, na necessidade de aplicar provas aos estudantes, nesse caso com o objetivo de saber o detalhe do detalhe sobre o que eles aprenderam até aquele momento do ano. Criamos seis testes anuais com essa finalidade. Isso mesmo: a idéia é fazer o monitoramento permanente. Acredito que só aí é possível ao professor dar uma boa aula, mais de acordo com as necessidades dos alunos. Infelizmente, o que observo sobre a maioria das escolas nos Estados Unidos é que, em se tratando de ensino, oferta e demanda ainda andam, basicamente, separadas. O professor fala sobre Platão para estudantes que desconhecem os fundamentos da Grécia antiga. Em aulas sobre a I Guerra, quase ninguém sabe onde fica a Europa. Não tem como dar certo. Se os alunos ignoram o básico,vamos lhes dar isso primeiro.

Veja: De que modo osenhor acha que dar prêmios em dinheiros aos melhores estudantes, como ocorre em Nova York, pode ajudar a melhorar esse cenário?

Nadelstern: A competição empurra as pessoas para frente. Nas escolas, as crianças encaram como uma gincana, na qual, para sair vencedoras, precisam estudar mais. Esse é o objetivo. Os alunos gostam. Os pais adoram. Mas sindicalistas e intelectuais lunáticos reclamam. Se a sociedade como um todo cultua os rankings, não vejo por que ser diferente no ambiente escolar, no qual supostamente se dá uma espécie de treino para a vida real. Premiar é, afinal, uma maneira de jogar luz sobre um conjunto de bons hábitos que devem servir de modelo para os outros.

Veja: Como atrair para as escolas públicas 350 milhões do setor privado, a exemplo do que ocorreu em Nova York?

Nadelstern: Lição número 1: não dá para bater à porta de Bill Gates com um diagnóstico de 1 000 páginas sobre a educação pública e esperar que ele tenha tempo e disposição para lançar-se a uma longa e enfadonha discussão teórica. O que funciona é chegar com um projeto curto, de execução palpável e custos definidos. Essa é a linguagem do mercado. Repetimos sempre nos Estados Unidos que a diversidade é a pedra fundamental de uma sociedade livre e democrática - e, por essa razão, estamos em busca de perfis distintos de escola. Ao passar o chapéu nas empresas, comecei a falar em um novo “portfólio” de colégios, e não mais em diversidade. Funcionou. Um país mais pobre como o Brasil certamente poderia se beneficiar mais desse tipo de prática.

Veja: Apesar de todos esses esforços, os indicadores de ensino em Nova York ainda são ruins......

Nadelstern: Os resultados na educação são sempre lentos, mas acho que, diante disso, avançamos a uma velocidade bastante razoável. Há cinco anos, 50% dos estudantes concluíam o ensino básico em Nova York. Hoje, são quase 60%. Ou seja, 20% mais gente. É um indicador que seguimos na direção correta. Estou bastante atento ao que outros países estão fazendo para melhorar. Essa é uma obrigação de qualquer homem público no mundo globalizado. Meu diagnóstico geral é que as escolas têm cara do século XIX em sociedades do século XXI. Elas continuam afeitas à decoreba, encaixotadas em grades curriculares ultrapassadas e incapazes de preparar as crianças para olhar os problemas da atualidade de modo abrangente e desprovido de preconceito. Os pais devem cobrar, sim, porque, no que diz respeito à escola pública, seus filhos são reféns de um serviço que se situa entre o mediano e o ruim; o velho e o antiquado. Por tudo isso, estou convicto de que as escolas precisam de um bom banho de modernidade.

Trechos do livro “A Prática da Pesquisa”
Cláudio de Moura Castro
Editara Pearson Prentice Hall

- As emoções e persuasões dos cientistas são vitais para lhes dar o alento e a motivação para trabalhar. Mas não podem interferir nos resultados. O cientista “torce” para o time da sua teoria. Mas ele é também juiz e dele exige-se a total imparcialidade ao contrastar a teoria com os fatos.

- Orientei uma tese de mestrado de uma ex-aluna de Piaget. Seu interesse era demonstrar que os testes de desenvolvimento cognitivo com crianças, inventado pelo mestre de Genebra, capturavam elementos que seriam mais independentes da origem social dos alunos dos alunos do que os testes convencionais de inteligência usados pelas escolas do Rio de Janeiro. O problema é eminentemente tratável pelos métodos estatísticos tradicionais. Sob minha orientação, a autora aplicou em algumas turmas escolares os testes de Piaget e os testes da Secretaria de Educação. Em seguida, estimou a correlação de cada um desses testes com a origem social dos alunos. Acontece que encontrou uma associação mais estreita entre classes sociais e os testes de Piaget do que nos testes da Secretaria. Ou seja, o método de Piaget era mais sensível ao ambiente familiar do que o outro que ela tentava crucificar.
Contudo, seu comprometimento emocional com as idéias de Piaget eram muito forte e ela não queria aceitar o que a sua própria pesquisa estava mostrando. Sentia-se, de alguma forma, traidora das idéias do grande mestre se mostrasse tais resultados. Chegamos a um impasse e o prazo final de apresentação de sua tese esgotou. Ela preferiu perder seu mestrado a descrever os resultados estatísticos de suas pesquisas. A força da fé foi maior do que a força da ciência.
Encontrei-me, pouco depois, com Jacques Voneche, sucessor de Piaget, na Universidade de Genebra e relatei o fato. Ele se interessou pelo assunto e enviei-lhe a (quase) tese. Ironicamente, do ponto de vista da originalidade cientifica, os resultados encontrados eram mais importantes, pois contrariavam uma crença da época. Ou seja, a moça perdeu o mestrado, apesar de ter uma tese mais original do que se houvesse encontrado os resultados que esperava.

EDUCAÇÃO BASEADA EM EVIDÊNCIA OU PALPITE?

“Os fatos não cessam de existir pelo fato de haverem sido ignorados”. Anônimo.

A presente seção ilustra a falta de clareza que existe na maioria das pessoas entre uma teoria e os dados que permitem verificá-la. É preciso entender que os dados não substituem uma teoria e que sem a teoria não vamos a nenhuma parte. É também preciso entender que `opinião’ e `crença’ não fazem parte de tal discurso. Ou temos respaldo para demonstrar que é assim ou não se pode dizer nada.

Em um ensaio da revista Veja, publicada em 03 de agosto de 2006, mostrei algumas estatísticas sobre o desempenho dos professores, sugerindo que fossem levadas a sério, pois contrariavam o senso comum. O ensaio provocou grande número de e-mails. Alguns entenderam e louvaram a idéia de que é preciso consultar o mundo real para ver se nossas teorias têm respaldo nele. Mas muitos entenderam que se tratava de uma batalha de opiniões, a minha contra a deles.

A discussão ilustra, de forma vivida, o contraste entre a visão cientifica de buscar a evidência no mundo real e uma percepção leiga da ciência ou do conhecimento que não precisa da observação para ser considerada verdadeira. Tomando tais reações contrárias como ponto de partida, preparei um segundo ensaio, retomando o tema, com ênfase no que é ciência e no papel da evidência em sua lógica. O texto a seguir é baseado na combinação dos dois ensaios.

Se consultarmos um médico bem formado, uma vez feito o diagnóstico, ele vai escolher a terapia com base na experiência vivida com pessoas que portavam a mesma síndrome e tomaram diferentes remédios. Será receitada aquela droga cujas estatísticas de sucesso são maiores do que as alternativas disponíveis. Decide a evidência, e não a palavra luminar ou a tradição. É a medicina baseada na evidência, hoje aceita universalmente dentre os profissionais de primeira linha.

Seria de imaginar que, na sala de aula, o critério devesse ser o mesmo. A evidência do que deu mais certo orientaria a escolha do método de alfabetizar, do livro ou da forma de ensinar. Parece lógico, funciona na medicina. Mas, em um número preocupante de casos, o professor não busca e evidência acumulada para orientar sua sala de aula, apesar de sua vida haver sido salva por seu medido – que usou estatísticas, e não superstições, para escolher a terapia.

Por que será assim? Uma possível razão é que a evidência científica é incontrolável e pode revelar verdades desagradáveis.

Com auxilio de João Batista de Oliveira, apresento a seguir algumas constatações constrangedoras e penosas. O Sistema Nacional de Avaliação de Educação Básica (Saeb) é uma prova tecnicamente bem-feita e impecavelmente aplicada. Mostra o nível de aprendizado dos alunos a ele submetidos. Tomando alunos da 4a série do ensino fundamental e tabulando pelo perfil dos professores que tiveram, podemos calcular as médias de cada subgrupo. Essa média mostra quanto aprenderam os alunos que têm professores com esse ou aquele perfil de formação.

Os alunos de professores que cursaram o magistério ou a pedagogia têm notas piores do que os alunos de professores que têm diploma de ensino superior de outras carreiras. Verificamos também que aqueles que fizeram curso de especialização têm alunos cujo rendimento também é inferior.

Aprende mais quem aprende com quem não é professor? Não sabemos ao certo. Se for verdade, por que não facilitamos aos que têm outros diplomas de curso superior o acesso ao magistério? Hoje não podem ensinar, a não ser que façam um curso longo e aparentemente inútil.

O Saeb mostra outras pistas interessantes. Buscando-se aqueles fatores que mais aumentam o rendimento dos alunos, encontramos que professores contratados pela CLT têm alunos com mais altos rendimentos. Por que são melhores mestres do que os estatutários e os contratados em regime precário? É o regime, ou eles têm alunos diferentes? Igualmente, os alunos dos professores que fizeram cursos de capacitação, abundantemente oferecidos pelo país afora, não têm notas melhores. Seriam inúteis esses cursos?

O Saeb nem é diagnóstico preciso nem terapia, apenas um termômetro. Mostra a existência de um problema e dá pistas para sua identificação em estudos subseqüentes, com ferramentas mais elaboradas. Mas se acreditarmos na educação baseada em evidência, não podemos ignorar o sinal de alarme, sugerindo que algo vai mal.

O aluno deve aprender no livro. Mas a primeira cartilha para avaliar os sistemas educativos é o Saeb. E, como está denunciando verdades particularmente desagradáveis, não podemos esperar que os prejudicados tomem iniciativas. Nada vai acontecer sem a interferência de ouras forças vivas da sociedade.

Aqui terminava o primeiro ensaio, defendendo a idéia de que as decisões em educação deveriam ser respaldadas pela evidência cientifica que possa existir na área. Portanto, as palavras encantadas dos gurus e as impressões pessoais deveriam ser confrontadas com o mundo real. No parágrafo abaixo, começa o segundo ensaio, reagindo aos e-mails gerados pelo primeiro.

Imaginemos que tenho uma teoria sobre nutrição e que essa desemboca na minha dieta para emagrecer. Se, pisando na balança, descubro que meu peso aumentou, posso até continuar insistindo na excelência da minha teoria e afirmando que a balança não interessa. Mas, na lógica da ciência, minha teoria está errada – salgo enguiço da balança.

No exemplo acima, as minhas teorias nutricionais são checadas pela balança – e destruída por ela. O mesmo deve acontecer na educação e em qualquer área que pleiteie o status de ciência. Precisamos de teorias e interpretações, mas, se não têm correspondência com a observação da realidade, não sobrevivem. A realidade não substitui a teoria, mas fuzila sumariamente a teoria que não se conforma com ela.

Recebi muitos e-mails louvando a idéia de que era saudável olhar a evidência. Contudo, como sugerido pelos meus e-mails, um número alarmante de professores pensa diferente. Para eles:

(I) Não é olhando a evidência que se decide entre o certo e o errado. Esta pode ser olimpicamente ignorada, sendo um desaforo questionar as verdades reveladas.

(II) O que está escrito no texto não é considerado. Portanto, tiram conclusões, assestam ataques e vituperam contra o que acham haver sido dito mas que, na realidade, não está escrito. O alvo principal das indignações é o que consideram ser as minhas “opiniões” contra os professores.

Várias mensagens contradizem, mais ou menos assim, uma afirmativa que eu teria feito: “O Cláudio acha que os professores sem diploma de professor são melhores do que os com diploma”. Contrapõe que sua opinião é certa e a minha errada.

Vejamos um e-mail representativo: “...fiquei indignada ao saber que alguém pode pensar que professores formados em pedagogia possam atuar menos em sala de aula em relação a outros formados em outras disciplinas. Quem conhece o processo ensino-aprendizagem das séries iniciais (...) jamais poderia fazer tal afirmação. A avaliação citada (do Saeb) não pode servir de parâmetro para qualquer julgamento sobre a qualidade da educação”.

Contudo, rejeita-se o que eu não disse! Escrevi o seguinte: “(Nas tabulações do Saeb), os alunos de professores que cursaram o magistério ou a pedagogia têm notas piores do que os alunos de professores que têm diploma superior em outras carreiras”. O trecho é mera leitura de uma tabela. Portanto, não é minha “opinião”. Digo em seguida: “Aprende mais quem aprende com quem não é professor? Não sabemos ao certo”. Veja-se que a interpretação é apresentada na forma de uma pergunta, convidando a um esforço de entender o porquê de um resultado tão anti-intuitivo (o presente ensaio não é propriamente sobre educação, mas sobre como entender o mundo. Portanto, não entro aqui nas explicações cabíveis).

Os missivistas negam a idéia de que encontramos tais respostas mediante a observação do mundo real. Implicitamente, afirmam o inverso, isto é, desvendamos o mundo real filosofando, `achando’, dando palpites ou referindo-nos a uma observação pessoal. É como se o Saeb fosse uma teoria alternativa que pudéssemos escolher – quando, na verdade, é o teste da teoria. É como a balança que verifica o resultado das minhas teorias nutricionais – mas não as substitui. Alias, será que essas mesmas pessoas gostariam de consultar-se com um médico que receita por palpite?

As mensagens conduzem a outra interpretação paralela, mas que tampouco é otimista: os missivistas não leram com atenção o ensaio. Responderam emocionalmente ao que pensam que o autor quis dizer. Só que o autor quis dizer exatamente o que escreveu, e não o que imaginam haver dito. Ou seja, nossos alunos estão aprendendo a ler com alguns professores que não são capazes, eles próprios, de decifrar com rigor um texto escrito.

Centrando nossa discussão no método cientifico e nos pecados cometidos contra ele, encontramos dois deslizes sérios. Em primeiro lugar, nega-se o papel da evidência factual como o teste necessário para qualquer teoria. Em segundo lugar, discute-se a partir do que não está escrito, ou seja, viola-se a regra metodológica sagrada de que as palavras e as proposições têm significados precisos. Não há ciência séria sem um acordo a respeito do que significam as palavras e do que está sendo dito.

O exemplo apresentado ilustra também o preço que a ciência tem de pagar ao ser tão exigente no seu método e tão peremptória nas suas conclusões. O preço é o alcance limitado do método cientifico para tratar muitos problemas relevantes, alguns dos quais exigem decisões de nossa parte.

Exploremos mais os exemplos citados. Apesar de a balança ter mostrado um aumento de peso, não fico sabendo por que isso aconteceu. Teria de usar métodos bem mais complexos para avançar na minha compreensão.

Os não-professores têm alunos com maiores notas. Isso ficamos sabendo. Mas é um resultado estranho, não satisfaz. Teríamos de avançar muito mais nas análises e dispor de informações mais completas para desvendar o enigma.

Em ambos exemplos, o mundo real contraria as nossas expectativas, mas não oferece de mão beijada as respostas que buscamos. Ficamos proibidos de acreditar nas nossas teorias, pois foram dilaceradas pelas evidências. Resta o desafio de aprofundar a análise, na esperança de que consigamos entender melhor a realidade. Em alguns casos isso é possível. Em outros, a ciência empaca antes que tenhamos respostas.

 

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