Biografias
Grandes Homens
A REVOLUÇÃO SEM FIM DE CHARLES ROBERT DARWIN
Fonte: revista Veja de 9 de maio de 2007
A história da viagem dele é quase tão conhecida
e reverenciada quanto a de Cristóvão Colombo. O naturalista
inglês Charles Darwin iniciou em 1831 uma viagem pelo mundo
a bordo do Beagle, um pequeno navio de exploração
cientifica. Quando voltou a Inglaterra, cinco anos depois, ele trazia
na bagagem um conjunto de idéias que mudariam para sempre
a geografia da alma humana tanto quanto Colombo mudou a geografia
terrestre. Não existe biólogo que não reverencie
a inteligência e capacidade analítica de Darwin.
Darwin em 10 perguntas e respostas.
1. O que Darwin descobriu? Charles Robert Darwin
descobriu que todos os seres vivos, do mais sábio dos homens
ao bacilo unicelular, podem ter sua linhagem ancestral traçada
até o começo da vida sobre a Terra.
2. Por que isso foi tão explosivo no tempo de Darwin
e por que ainda causa tanta polêmica? Antes de Darwin
a ciência se contorcia em torno da crença religiosa
segundo a qual todos os seres vivos tinham sido criados por Deus,
cabendo aos homens apenas dar-lhe nomes. Nenhum cientista teve antes
de Darwin argumentos e coragem intelectual de se opor à idéia
religiosa da criação. As descobertas eram pateticamente
adaptadas ao dogma religioso. Quando começaram a se desenterrados
ossos de dinossauros e outros animais extintos, o sábio francês
Georges Cuvier (1769-1832) ofereceu a mais extraordinária
dessas adaptações: “são ossos de animais
que não conseguiram embarcar na Arca de Noé e morreram
no dilúvio bíblico”. Darwin quebrou esse paradigma
e chocou-se de frente com a hierarquia religiosa protestante e católica.
Ele o fez de maneira serena mas irrefutável colocando de
pé uma doutrina que se assenta sobre cinco pontos.
3. Quais são as cinco teorias que sustentam Darwin
até os dias de hoje?
Evolução: o mundo vivo não
foi criado nem se recicla perpetuamente. Os organismos estão
em um lento, mas constante processo de mutação.
O ancestral comum: todo grupo de organismos descende
de um ancestral comum. Os homens e os macacos atuais, por exemplo,
divergiram de um mesmo ancestral, há 4 milhões de
anos. Todos os seres vivos, em última instância, descendem
de uma simples e primitiva forma de vida – a chamada “ameba
original”.
Multiplicação das espécies: As
espécies tendem a se diferenciar com a passagem das eras.
Darwin desenhou a primeira “árvore da vida” em
que espécies “tronco” vão dando origem
a outras que saem do veio principal como “galhos”.
Gradualismo: As populações se diferenciam
gradualmente, de geração em geração,
até que as espécies que seguiram por um “galho”
da árvore da vida não pertençam à mesma
espécie do “tronco” e de outros “galhos”.
Seleção natural: É a teoria
essencial do darwinismo. Ela se baseia no fato de que os seres vivos
sofrem mutações genéticas e podem passá-las
a seus descendentes. Cada nova geração tem sua herança
genética colocada à prova pelas condições
ambientais em que vive. A evolução é oportunista
e randômica. O que é isso? Primeiro, o processo evolutivo
seleciona (ou seja, mantém vivos e com mais chances de passar
adiante seus genes) os animais e plantas cujas mutações
são mais favorecidas pelo ambiente em que são obrigados
a viver. Segundo, as mutações ocorrem ao acaso, e
não com o objetivo de melhorar as chances de sobrevivência
de quem as sofre. Um exemplo simples: os peices primitivos não
podiam tirar o oxigênio diretamente da água. Alguns
passaram por mutações que os dotaram dessa capacidade.
Esses últimos se adaptaram melhor à vida aquática
e hoje dominam os rios, lagos e oceanos.
Darwin
tinha 22 anos quando embarcou no Beagle, um veleiro de 27 metros
da Marinha inglesa. Saiu em dezembro de 1831, passou pelas Ilhas
Canárias, Cabo Verde, Salvador, Rio de Janeiro, Montevidéu,
Punta Alta, Ilhas Malvinas, Terra do Fogo, Estreito de Magalhães,
Valparaíso, Ilhas Galápagos, Austrália, Ilhas
Keeling, Ilhas Maurício, Cabo da Boa Esperança, Pernambuco
e retornou à Inglaterra em outubro de 1836.
4. A evolução é uma teoria ou uma lei
natural? É uma teoria cientifica. Como tal, ela
pode ser desmontada desde que surja uma única prova de que
ela não funciona. Darwin disse que se alguém lhe apontasse
um único ser vivo que não tivesse um ascendente sua
teoria poderia ser jogada no lixo.
Os neodarwinistas (darwinistas modernos, após a descoberta
dos genes, o que corroborou a teoria de Darwin) são ainda
mais desafiadores: basta que se prove que um único órgão
de um ser vivo (olhos, ouvidos, nadadeiras..) não teve origem
em um proto-órgão (olhos, ouvidos e nadadeiras primitivas)
e toda a teoria darwinista pode ser descartada.
5. Darwin fez tudo sozinho ou ele é mais um “filho
do iluminismo”, como ficaram conhecidos outros sábios
que contestaram dogmas religiosos do seu tempo? O que Darwin
fez como naturalista é quase miraculoso. Se ele não
tivesse proposto a teoria da evolução, ainda assim
seria lembrado como um dos gênios da humanidade. Seus trabalhos
sobre botânica experimental, psicologia animal e classificação
são obras que ainda hoje são leituras atuais e obrigatórias
para os estudiosos. Muitos pré-darwinistas pavimentaram o
caminho para Darwin, em especial no que diz respeito ao gradualismo.
Sábios gregos e chineses da Antiguidade admitiam que formas
de vida podiam se transformar com o tempo ou mesmo desaparecer.
Alfred Russel Wallace, contemporâneo de Darwin, desenvolveu
de forma independente uma teoria da evolução. O que
fez de Darwin único foi o rigor de seu método cientifico,
sua capacidade multidisciplinar e o processo disciplinado de extrair
conclusões com base em décadas de observação.
6. O que os chamados neodarwinistas acrescentaram ao trabalho
original de Darwin? Muita coisa. Depois do impacto original
de suas idéias, Darwin caiu em um quase-esquecimento. As
primeiras duas décadas da ciência genética no
século XX pareciam minar o darwinismo. Se todas as mutações
genéticas descobertas até então eram mutiladoras
(retardamentos, membros atrofiados....) como as espécies
podiam evoluir? Coube a três grandes neodarwinistas colocar
a ordem em casa. O primeiro deles foi o americano nascido na Alemanha
Ernst Mayr, que morreu em 2005, aos 100 anos. Mayr mostrou como
funciona a seleção natural. Ele demonstrou que o isolamento
era a chave da questão. Como ambientes isolados colocam pressões
evolucionárias diferentes sobre uma mesma espécie,
ela tende a mutar em diferentes direções até
desgarrar totalmente do plantel original. O segundo foi George Gaylord
Simpson, que desencavou os “osso velhos”, os fósseis,
que permitiram mostrar de maneira cristalina a evolução
que produziu os cavalos atuais. Seu trabalho com moscas de frutas
uniu os campos da genética com o darwinismo. Dobzhanky demonstrou
que nem toda mutação é deletéria. O
sucesso da mutação vai depender do ambiente onde o
individuo vai viver.
7. Darwin disse que o homem descende do macaco?
Não. Darwin escreveu que tanto os homens atuais quanto os
macacos tiveram antepassados primitivos. Mas essa tem sido a mais
resistente falsidade sobre o darwinismo.
8. A briga da Igreja com Darwin vem do fato de ele ter
tirado o homem da linhagem dos “anjos decaídos”?
Sem dúvida. Darwin mostrou que a linhagem humana é
fruto das pressões evolutivas em ação por milhões
de anos tanto quanto qualquer outro ser vivo. Sob esse aspecto a
humanidade nada tem de especial.
9. Darwin nunca foi desmentido em nada?
Em edições posteriores a sua obra A Origem
das Espécies....Darwin sugeriu que os seres vivos
poderiam passar características adquiridas para seus descendentes.
Esse mecanismo, que ele tomou por empréstimo do francês
Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829), foi uma clara fraqueza de Darwin.
Ele duvidou da seleção natural como único mecanismo
de diferenciação. Ou seja, pelo menos por alguns anos
Darwin acreditou na idéia, hoje absurda, de que a girafa
tem o pescoço comprido de tanto se esforçar para comer
as folhas tenras do topo das árvores, as únicas que
sobram em tempos de secas escaldantes.
10. A que se atribui essa fraqueza de Darwin?
Darwin enfrentou cerrada oposição das instituições
cientificas tradicionais, além de descrédito e pressões
familiares terríveis. O pai de Darwin queria que se tornasse
um clérigo anglicano, e não um naturalista. Emma,
sua mulher, tinha certeza de que irai para o céu e Charles,
por sua teoria, para o inferno. Ela se torturava com a idéia
de “passar a eternidade” longe do marido. Nesse ambiente,
não é estranho que Darwin tenha flertado com o mecanismo
lamarquista, um processo menos ofensivo aos dogmas religiosos. No
fundo, Darwin sabia que primeiro o pescoço da girafa cresceu
por mutação aleatória, e essa mutação
se mostrou favorável nos períodos de seca inclemente,
de forma que a natureza a selecionou para sobreviver até
os dias de hoje.
As idéas de Darwin, aperfeiçoadas por seus discípulos
ao longo de 150 anos, são hoje um consenso entre os biólogos.
Mas continuam a incomodar o pensamento religioso.
Nota do professor: é sempre bom lembrar
que na época de Darwin não se conhecia absolutamente
nada sobre genes e mutações. A genética ainda
não havia sido descoberta. Suas convicções,
que hoje podem ser provadas cientificamente, baseavam-se única
e tão somente em observações e estudos. Um
grande abraço. Tucano.
O Brasil aos olhos de Darwin
Ao
aportar no litoral da Bahia em fevereiro de 1932, na terceira escala
de seu périplo a bordo do Beagle, Charles Darwin ficou extasiado
com a vegetação à sua frente. Anotou em seu
diário: “é uma visão das mil e uma noites
com a diferença de que é tudo verdade”. Era
a primeira vez que o naturalista pisava numa floresta tropical.
Darwin esteve no Brasil por duas vezes, nos trajetos de ida e volta
de sua viagem de cinco anos. Ao todo, permaneceu cinco meses e meio
no país, tempo suficiente para realizar seus estudos e espantar-se
com os hábitos dos nativos. A começar pelo Carnaval.
Em Salvador, quando viu os foliões tomar as ruas e atirar
bolas de cera cheias de água uns nos outros, achou por bem
recolher-se à tranqüilidade do Beagle.
Dois meses depois, o navio chegou ao Rio de Janeiro, então
capital do império. No Rio, Darwin foi convidado a conhecer
uma fazenda de café no norte fluminense. Antes da viagem,
criticou em seu diário a demora das autoridades brasileiras
em lhe conceder os documentos necessários para viajar com
cavalos. “Mas as perspectiva de ver as matas selvagens, cheias
de preguiças e jacarés”, escreveu ele, “faz
um naturalista até mesmo lamber o poeira das botas de um
brasileiro”. A excursão durou quinze dias. No caminho
o explorador só conseguiu se alimentar de galinha e farinha
da mandioca, este último ingrediente, segundo Darwin, “o
mais importante alimento na subsistência do brasileiro”.
Na volta ao Rio de Janeiro, Darwin deixou o Beagle e se hospedou
num chalé em Batafogo. Andou pela floresta da Tijuca, foi
ao Jardim Botânico, ao Pão de Açúcar
e coletou centenas de plantas e insetos. Fez anotações
sobre a “falta de educação” dos brasileiros
e a forma como a era feita no país. “Se um crime, não
importa quão grave seja, é cometido por um homem rico,
logo ele estará em liberdade. Todo mundo pode ser subornado”,
escreveu. As observações mais contundentes de Darwin
sobre o Brasil dizem respeito à manutenção
da escravidão e à forma violenta como os escravos
eram tratados. Certo dia, inadvertidamente, foi protagonista de
um episodio dramático. Um escravo conduzia a balsa na qual
ele fazia uma travessia de rio. Tentando se comunicar com ele para
lhe dar instruções, Darwin começou a gesticular
e a falar alto. A certa altura, sem querer, esbarrou a mão
no rosto do negro. Este imediatamente baixou as mãos e a
cabeça, colocando-se na posição que estava
habituado a assumir para ser punido fisicamente. “Que jamais
visite de novo uma nação escravocrata”, anotou
ele ao deixar a costa brasileira. |